"Onze da manhã. Ele entra no Fórum Trabalhista de São Paulo com o filho de quatro anos no colo. Sobe o elevador, senta no beiral do prédio e de lá ele salta. O filho preso nos braços até o impacto do chão afastá-los para sempre. No mesmo dia, um homem esfaqueia a mulher, arremessa os dois filhos pequenos do 18° andar de seu prédio e logo em seguida se joga. 'Está claro para mim que está insustentável e não vou conseguir levar adiante', ele diz numa carta. Essas cenas são de embrulhar qualquer estômago. Podia ser ficção mas infelizmente não é. Aconteceram no dia 29 de agosto deste ano.
Setembro é o mês amarelo, um mês dedicado a campanhas de prevenção do suicídio. Alguns veículos de comunicação divulgam eventos e depoimentos. Outros se calam. Faz parte de uma cultura de não falar muito sobre o assunto, que ocorre devido ao tabu em torno do tema e do medo do tal Efeito Werther. Esse é o nome dado ao efeito do suicídio por imitação. Um potencial suicida buscaria inspiração em casos divulgados pela imprensa, principalmente relacionado a celebridades. Claro que uma cobertura sensacionalista do suicídio e a divulgação de alguns detalhes é desnecessária, mas por outro lado, não podemos calar perante um problema de saúde pública mundial. (...)
Escutar um potencial suicida é ter uma conversa franca, sem pisar em ovos nem usar eufemismos. Não é fingir que está tudo bem. Porque não está. Compreender uma dor é estar presente sem julgamentos, permitir que o outro fale sem sentir-se em um interrogatório. Muitas vezes, aquela pessoa não quer morrer. Ela só quer que a dor vá embora. Só que ela não vê saída e morrer parece ser o melhor que lhe resta fazer. Normalmente, ela não quer magoar os familiares, causar traumas, ele quer justamente deixar de ser um estorvo. (...)
Podemos e devemos fazer alguma coisa. Alguém próximo a você pode estar numa situação 'sem saída', mesmo que o sorriso no rosto disfarce seus planos para não acordar no dia seguinte.
Os dados são alarmantes. Uma cartilha sobre orientação a conselheiros da OMS diz que um maior número de pessoas comete suicídio anualmente do que as que morrem em todos os conflitos mundiais combinados (acesse aqui). Citando dados do Ministério da Saúde e da própria OMS, o CVV diz que pelo menos 32 brasileiros se matam por dia, taxa superior às vítimas de AIDS e da maioria dos tipos de câncer. Desses 32 casos, 28 poderiam ter sido prevenidos. No mundo, estima-se que uma pessoa se mata a cada 40 segundos.
O CVV criou o site SetembroAmarelo reunindo informações sobre as atividades do mês, com maior atenção ao Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, dia 10 de setembro. (...)"
Caia Na Real
Os temas polêmicos, surreais e filosóficos da sociedade de ontem, hoje e amanhã.
:: sábado, 10 de setembro de 2016
Setembro amarelo
- Camila Appel: "Setembro amarelo: mês de conscientização do suicídio"
:: quarta-feira, 22 de junho de 2016
Post filosófico do dia
"Ali, no velho boteco, entre garrafas vazias, chinelos de dedo, copos americanos, pratos feitos e petiscos gordurosos, no mar de barrigas indecentes, onde São Jorge é o protetor e mercado é só a feira da esquina, a vida resiste aos desmandos da uniformização e o Homem é restituído ao que há de mais valente e humano na sua trajetória - a capacidade de sonhar seus delírios, festejar e afogar suas dores nas ampolas geladas feito bunda de foca. É onde a alma da cidade grita a resistência."
(Luiz Antonio Simas)
:: sábado, 18 de junho de 2016
Post filosófico do dia
"Eu não soube administrar minha vida, então não posso dirigir a vida dos outros. Minha vida foi uma série de equívocos. Não posso dar conselhos. Ando um pouco à deriva. Quando penso no meu passado, sinto vergonha. Eu não transmito mensagens, os políticos transmitem mensagens."
(Jorge Luis Borges)
:: terça-feira, 14 de junho de 2016
Post filosófico do dia
"Call off your dogs
Listen when I call
I know there’s something wrong with the limits
We got turned around but we can spin it
Call off your dogs
What’s with the walls?
If we’re strong we can win it
One word can begin it:
Hello"
(Trecho de "Call Off Your Dogs", Lake Street Dive)
Listen when I call
I know there’s something wrong with the limits
We got turned around but we can spin it
Call off your dogs
What’s with the walls?
If we’re strong we can win it
One word can begin it:
Hello"
(Trecho de "Call Off Your Dogs", Lake Street Dive)
:: segunda-feira, 13 de junho de 2016
Psicologia social e pensamento de grupo
"Quanto mais nos alimentamos com a ideia de que o nosso grupo é o mais inteligente e moralmente superior, mais desprezamos a importância de que o nosso pensamento individual resista livremente à influência irracional dos sentimentos de vínculo e pertença. No auge do vínculo, já não se trata mais, propriamente, de pensar. Basta seguir o grupo."
(Rodrigo Cássio)
Post filosófico do dia
"O problema do Brasil não é estar em uma encruzilhada. É não estar nela, desprezando nas linhas retas da normatividade de seus políticos, sabichões, doutos mestres, chefes de família, homens de bem, bem-sucedidos, revolucionários e conservadores, a enorme potência descolonizatória e de desregramento dos mundos que o cruzo das encruzas, pensado potentemente, poderia trazer. Padecemos de desencanto. Ir para as encruzilhadas pode ser, quem sabe, um ponto de viração. Eu, que sou da encruzilhadas, escrevi certa feita e repito: desconfio e tenho medo é dessas gentes dos caminhos retos."
(Luiz Antonio Simas)
:: sábado, 11 de junho de 2016
Autonomia vs. Polícia de Pensamento
"Vejo dois parâmetros mínimos pra fazer política (e, bem, viver em sociedade): aceitar o dissenso e ser capaz de estabelecer relações de confiança. Eu só consigo ser amigo dos meus vizinhos porque não roubo o leite da porta, nem os acuso de fazê-lo injustamente, e porque não os obrigo a serem iluminados por todas as minhas convicções. Por óbvio, isto não quer dizer que basta ser polido e defender o que quer que seja, há ideologias que já trazem em si a negação dessas possibilidades. Ninguém há de confiar num grupo que defende sua aniquilação, e só um idiota tentaria mediação com quem faz polícia de pensamento. Isto seria abdicar de qualquer autonomia.
Se eu estou, a esta altura, absolutamente pessimista - sobre a política, não sobre a vida, que esta há de ser sempre fantástica, e com ela meu compromisso é inegociável - é porque eu sinto que nos tornamos uns obsessivos imediatamente dispostos a policiar pensamento e antagonizar com grupos abstratos, com estereótipos (eles podem ser até úteis pra entender o mundo, mas não existem materialmente - totalizar pessoas em estereótipos é uma violência e uma ignorância). O que sobra é o fechamento em grupos de iguais. E um grupo de iguais é sempre um grupo de policiais. Eu vejo aqui diariamente o gozo de quem está agindo como polícia e, não importa contra quais tipos de 'crimes', tenho horror. E resulta, inequivocamente, um apequenamento, um empobrecimento dessa gente. Ninguém consegue ver razões para além do muro. Ninguém consegue aprender do lado de fora, e vive menos.
Existe a barbárie dos 'incivilizados', essa barbárie que a natureza provê, que é própria do caos. Sempre vou achá-la menos trágica que aquela que se formata como civilização."
(Pedro Ivo)
:: sexta-feira, 10 de junho de 2016
Post filosófico do dia
"Try to stop my hands from shaking
But something in my mind's not making sense
It's been awhile since we've been all alone
I can't hide the way I'm feeling"
(Trecho de "Your Love", The Outfield)
But something in my mind's not making sense
It's been awhile since we've been all alone
I can't hide the way I'm feeling"
(Trecho de "Your Love", The Outfield)
Sobre a inveja primária e a imposição de regras
"(...) De repente, um grupo de deputados evangélicos quer abolir o uso do nome social. Para eles, o cidadão ou a cidadã que vive num gênero diferente do seu sexo anatômico sempre terá que anunciar seu nome original. Acrescento: de modo que sempre seja zombado.
É um mistério: como é que alguém tem uma iniciativa dessa? De onde nasce a paixão de impor regras aos outros e de disciplinar a vida deles?
No Ocidente moderno (desde o fim do século 18), só é proibido, em tese, o que limitaria a liberdade do outro. À condição de não ferir ninguém, cada um e cada grupo podem se dar as regras que quiserem. Ninguém obriga os praticantes de suingue à monogamia, e ninguém obriga evangélicos a praticar suingue.
Como é possível, então, que surjam paixões de disciplinar os outros? E por que isso acontece sempre em matérias que tocam ao sexo, aos prazeres a ao gozo? (...)
A inveja primária (os psicanalistas dirão que ela é de antes do Édipo) é um dos sentimentos que mais sobrevivem e dão forma às relações entre adultos. (...)
Chegamos à conclusão: disciplinar significa reprimir no outro o que suponho que seja seu gozo. A origem da paixão de disciplinar está na inveja primária: ele não terá mais do que eu, não gozará mais do que eu."
(Contardo Calligaris)
:: quinta-feira, 9 de junho de 2016
A sociedade do patrulhamento e o silenciamento de vozes
- Jon Ronson: Quando a espiral de humilhações on-line sai fora do controle
Comentário
Uma das melhores palestras a que já assisti. A mensagem ao final é fundamental para compreendermos o triste ponto a que chegamos nos debates cheios de ódio na era das redes sociais:
Comentário
Uma das melhores palestras a que já assisti. A mensagem ao final é fundamental para compreendermos o triste ponto a que chegamos nos debates cheios de ódio na era das redes sociais:
"Talvez haja dois tipos de pessoas no mundo: aquelas que colocam humanos acima da ideologia, e aquelas que colocam ideologia acima dos humanos. Eu coloco humanos acima da ideologia mas, no momento, os ideólogos estão vencendo e eles estão armando um palco para grandes dramas permanentes e artificiais onde todo mundo se torna ou um herói magnífico ou um vilão nojento, mesmo nós sabendo que nossos companheiros humanos não são assim.
A verdade é que somos inteligentes e burros; a verdade é que existem áreas cinzentas. O grande avanço das mídias sociais foi ter dado voz a pessoas que não tinham voz, mas agora estamos criando uma sociedade do patrulhamento em que o melhor jeito de sobreviver é voltar a não ter voz.
Não façamos isso."
Post filosófico do dia (2)
"Não somos nós que guardamos as lembranças, são as lembranças que nos guardam."
(Mia Couto)
É preciso mudar a sociedade de consumo em que vivemos
"(...) Imaginar que uma sociedade voltada explicitamente à satisfação das necessidades humanas vai alterar por si só os potenciais destrutivos embutidos inevitavelmente no avanço da ciência e da técnica é mais que ilusório: é expressão de prepotência, é renunciar à tarefa atual mais urgente, qual seja o esforço consciente para assumir um medo desinteressado, no qual junto com o mal apareça o bem a ser defendido, junto com o infortúnio apareça uma salvação que não faça exigências demasiadas [e por isso] o medo se torna a primeira obrigação preliminar de uma ética da responsabilidade histórica."
(Ricardo Abramovay)
Post filosófico do dia
"As classes proprietárias, exploradoras e governantes, nunca farão voluntariamente, por generosidade ou por justiça, nenhuma concessão, por mais urgente que ela pareça e por mais fraca que seja, ao proletariado; isso porque é contra a sua natureza, e precisamente contra sua natureza especial, de tal forma que nunca houve exemplo na história de uma classe dominante que tenha feito tais sacrifícios por sua plena vontade; alguns privilegiados só consentiram fazer pequenos sacrifícios quando, superados e ameaçados em sua própria existência pela força ascendente do proletariado, viram-se forçados a fazer sacrifícios bem mais importantes. Que, em consequência, o proletariado nada deve esperar nem da inteligência, nem da equidade dos burgueses, e ainda menos de sua política, até mesmo a dos radicais burgueses ou dos burgueses pretensamente socialistas, nem mesmo, enfim, dos representantes burgueses da ciência, e que a emancipação dos trabalhadores só pode ser exclusivamente obra dos próprios trabalhadores."
(Mikhail Bakunin)
Texto para reflexão
- Alysson Leandro Mascaro: "Todo direito é um golpe"
"Todo direito é um golpe. É a forma do engendramento da exploração do capital e da correspondente dominação de seres humanos sobre seres humanos. Tal golpismo jurídico se faz mediante instituições estatais, sustentando-se numa ideologia jurídica que é espelho da própria ideologia capitalista. Sendo o direito sempre golpe, a legalidade é uma moldura para a reprodução do capital e para a miríade de opressões que constituem a sociabilidade. Todo o direito e toda a política se fazem a partir de graus variados de composição entre regra e exceção. (...)"
:: quarta-feira, 8 de junho de 2016
A farsa da "Escola Sem Partido": é preciso ter cuidado com as armadilhas do senso comum
"Nada mais ideológico do que negar a ideologia. Por isso as propostas do movimento Escola Sem Partido (ESP) são uma arapuca armada para pegar o senso comum. A começar pelo nome de batismo.
É evidente que escola não tem que ter partido. Essa obviedade não é anunciada à toa. É uma armadilha. Com ela, os ideólogos da proposta tentam esconder os seus reais propósitos: despolitizar a educação descolando-a do contexto social e cultural em que está inserida. O alvo não é o proselitismo partidário, mas o pensamento crítico e a experiência da pluralidade.
Quando menciono a crítica, não evoco o sentido negativo da palavra –ser contra algo–, como ela é comumente utilizada. Refiro-me à capacidade de analisar e formar opinião de maneira autônoma. Como escreveu Paulo Freire, os estudantes precisam aprender a ler o mundo. Só assim teremos uma educação verdadeiramente emancipatória e humana. (...)
A aprendizagem não pode ser reduzida a um processo meramente técnico, bancário, de transferência de conteúdo de professor a aluno. Educação é diálogo, desvendamento, experiência e respeito à pluralidade. É de mais Paulo Freire que precisamos."
(Marcelo Freixo - grifos meus)
Só uma coisa nunca muda: o Bolsa-Rentista
- No Terra: "Brasil se distancia mais como maior juro real do mundo"
Comentário
Hoje (8/6) o Comitê de Política Econômica do Banco Central (Copom) manteve a nossa pornográfica taxa de juros em 14,25% ao ano.
Descontada a inflação, ainda estamos com a maior taxa de juros real do mundo.
Pois é. Os rentistas continuam rindo à toa.
Com ou sem crise, com ou sem golpe, não importa: os mais ricos sempre foram e continuam a ser beneficiados pelo partido político que está de plantão no poder.
Foi assim com FHC, Lula, Dilma, e será também com Temer, é claro.
"Ah, Curro, mas não tem outro jeito, o mercado não deixa a gente mudar..."
Então tá, né.
Fiquem aí tentando explicar via determinismo e pragmatismo político covarde ou via planilhas econômicas ortodoxas o motivo de estarmos há 20 anos com uma das maiores e mais absurdas taxas de juros do planeta (geralmente ficamos na liderança isolada mesmo, como agora).
Eu vou é pra Plutão.
Boa noite a todos.
E boa sorte.
Comentário
Hoje (8/6) o Comitê de Política Econômica do Banco Central (Copom) manteve a nossa pornográfica taxa de juros em 14,25% ao ano.
Descontada a inflação, ainda estamos com a maior taxa de juros real do mundo.
Pois é. Os rentistas continuam rindo à toa.
Com ou sem crise, com ou sem golpe, não importa: os mais ricos sempre foram e continuam a ser beneficiados pelo partido político que está de plantão no poder.
Foi assim com FHC, Lula, Dilma, e será também com Temer, é claro.
"Ah, Curro, mas não tem outro jeito, o mercado não deixa a gente mudar..."
Então tá, né.
Fiquem aí tentando explicar via determinismo e pragmatismo político covarde ou via planilhas econômicas ortodoxas o motivo de estarmos há 20 anos com uma das maiores e mais absurdas taxas de juros do planeta (geralmente ficamos na liderança isolada mesmo, como agora).
Eu vou é pra Plutão.
Boa noite a todos.
E boa sorte.
Post filosófico do dia
"Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir"
(Trecho de "Pra Você Guardei o Amor", Ana Cañas e Nando Reis)
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir"
(Trecho de "Pra Você Guardei o Amor", Ana Cañas e Nando Reis)
O poder da leitura
Regra de vida: toda vez que sentir tristeza, procurar uma biblioteca ou sebo.
Incrível como resolve.
Incrível como resolve.
O uso de rótulos para desqualificar
"Um dos obstáculos ao progresso da pesquisa é esse funcionamento classificatório do pensamento acadêmico - e político -, que muitas vezes embaraça a invenção intelectual, impedindo a superação de falsas antinomias e de falsas divisões. A lógica do rótulo classificatório é exatamente a mesma do racismo, que estigmatiza, aprisionando numa essência negativa. Em todo caso, ela constitui, a meu ver, o principal obstáculo ao que me parece ser a relação adequada com os textos e pensadores do passado. De minha parte, mantenho com os autores uma relação muito pragmática: recorro a eles como 'companheiros', no sentido da tradição artesanal, como alguém a quem se pode pedir uma mão nas situações difíceis."
(Pierre Bourdieu)
(Pierre Bourdieu)
Sobre o neoconservadorismo contemporâneo
"A atitude do neoconservador, em geral, é de subestimar a inteligência do outro, confundindo a apresentação de perspectivas ou a crítica com a imposição autoritária de uma única visão, como se o receptor fosse incapaz de decidir por si mesmo se está de acordo ou não com a posição levantada."
(Moysés Pinto Neto)
Fundamentalismo político, bodes expiatórios e ausência de autocrítica
Algo que me intriga em debates políticos é quando um interlocutor insiste não apenas em ignorar seus erros mas afirma, com a maior cara-de-pau, que "na verdade" os culpados pelos problemas do governo/partido que ele defende seriam os grupos oposicionistas da esquerda "radical" que ousaram cobrar demandas progressistas urgentes e alertar para os riscos e equívocos graves da estratégia de coalizão com as elites.
Essa cínica busca por bodes expiatórios é algo tão hipócrita (ou patológico) que simplesmente impede qualquer debate argumentativo. E é uma triste demonstração de arrogância e falta de autocrítica.
Seja processo psicanalítico ou hipocrisia consciente, o fato é que essa postura representa um sintoma, indicando que esse tipo de pessoa não irá nunca admitir erro algum, por mais claro e demonstrável que seja.
Demorou mas, quando percebi que esse era o caso, vi que estava enxugando gelo ao tentar debater numa boa quando o outro lado já tinha um crença enraizada que seria defendida a todo custo, inclusive adotando práticas como a desqualificação/rotulação do "adversário", mentiras, distorções de fatos e desprezo pelo pensamento crítico.
Todas as táticas risíveis que sempre criticamos na direita conservadora, agora são repetidas pela esquerda "reformista-pragmática", sem nenhum pudor ou constrangimento. E há quem ainda tenha dúvidas sobre a razão de o povo ter cada vez mais desprezo pela Política e ter dificuldades para diferenciar a esquerda da direita...
Debater sem humildade e autocrítica fica simplesmente impossível. Em alguns grupos que participei, vi somente discursos de autoelogio e aceitação passiva da teoria que melhor concretizava o desejo de confirmação ideológico entre pessoas que concordaram, a priori, com uma mesma narrativa fantasiosa. Era proibido apontar que, junto aos acertos, erros também foram cometidos, com consequências graves que nos perseguirão por décadas. Pior: tratavam os críticos como tolos-cegos-ingênuos que não enxergavam a "realidade", acessível somente a esses "sábios".
Talvez o sintoma mais surreal apareça naqueles momentos em que alguém aponta graves contradições nessa narrativa pré-estabelecida. Os malabarismos mentais para justificar o injustificável e relativizar uma contradição são impressionantes. Para mim, a experiência foi mais que impressionante: foi inacreditável. Nunca pensei que alguns amigos queridos pudessem agir de forma tão fundamentalista, cínica e arrogante.
Se esse comportamento for inconsciente, talvez até hoje eles não tenham percebido que agiram assim. Talvez nunca percebam.
Confesso que, em 40 anos de vida, nunca pensei que fosse me afastar de amigos por causa de política. Sempre acreditei que era possível discordar em "bons termos".
Estava errado.
A dura verdade é que, a cada encontro com certos amigos, eu me sentia mais deprimido e assustado. Aquilo deixou de ser debate e discordância apenas: era falta de respeito, ausência de consideração pela análise alheia. Era postura arrogante vinda de autoproclamados "donos da verdade", sem deixar espaço para sequer questionar o que defendiam. Quando pegos em contradições, mudavam rapidamente o discurso, relativizavam o que fosse necessário, apontavam para o outro lado e gritavam "olha o lobo!", mantendo assim intacto o desejo de confirmação pré-estabelecido. E, assim, nada mudava.
Uma hora essa jornada cansa. Tentei avisar, alertei a amigos que talvez houvesse um problema não só com o que defendiam, mas com a forma como vinham defendendo, desqualificando e sendo injustos com muita gente pelo caminho. Que as escolhas que eles faziam ao lidar com as críticas (transferi-las a outros grupos, usando-os como bodes expiatórios) diziam muito mais sobre si próprios do que sobre esses outros grupos.
Mesmo sofrendo ataques e desqualificações que me assustavam pela completa ausência de realismo, tive paciência para manter a relação de amizade e explicar esses problemas por diversas vezes acreditando que, aos poucos, o bom senso prevaleceria. Fiz um esforço enorme para tentar entender o outro lado, o que defendiam, por que defendiam daquela forma, se tinham ou não consciência de certas ações e fatos. E esperava o mesmo retorno da parte deles.
Mas a coisa parece que só piorou: quanto mais eu me abria e, ainda assim, continuavam a aparecer as contradições e os riscos dos caminhos trilhados, mais agressivos e arrogantes alguns amigos se tornavam. E mais fundamentalistas se tornavam as teorias defendidas.
Então resolvi me afastar, sim, inclusive de grandes amigos que agiram assim e que supostamente estão do mesmo "lado" da minha luta política.
Não que eles tenham perdido grande coisa, sei que minha amizade plutoniana não vale nada mesmo. Não será minha ausência que os fará questionar suas posturas em debates.
Só que às vezes precisamos fazer uma escolha difícil e sair de uma relação perversa (na qual o outro lado talvez sequer percebe o mal que causa, tão forte é a crença e a arrogância) para, enfim, reencontrar um mínimo de paz interior.
Sim, há perdas nesse processo de afastamento. Paciência: nem tudo pode ser resolvido.
Acredito em poucas coisas nesta vida.
Minha filosofia política é bastante precária e minimalista, certamente incompleta para compreensão das causas de tantas mazelas neste planeta. Procuro reconhecer erros, aprendo pelo caminho, mantenho ouvidos sempre abertos, e reflito sem nunca abandonar o pensamento crítico, uma proteção que vejo contra qualquer fundamentalismo que tente legitimar ou naturalizar escolhas humanas que geram injustiça, desigualdade e dor.
Uma realidade que aprendi a aceitar é que não há só dois lados numa luta, mesmo quando todos ao seu redor fazem chantagem para que você enxergue o mundo dessa forma binária e, assim, acabe por limitar suas escolhas (presentes e futuras). Esse maniqueísmo empobrece qualquer debate e é, por si só, conservador.
Hipocrisia e injustiças me incomodam muito e ignorá-las ou relativizá-las sempre gera retrocesso em algum momento.
Não, os fins não justificam os meios, pois os meios são parte inseparável da realidade que estamos tentando mudar.
Não, não há "menor dos males" ou "podia ser pior" que justifique o silêncio em relação a injustiças ou erros. Seja qual for o "lado" que se tente defender.
Então não, não vou nem nunca irei "pro outro lado", mas também não vou fazer parte ou usar meu tempo em um grupo que, ignorando seus próprios privilégios, não reconhece o retrocesso histórico estrutural no campo de lutas progressistas que acontece graças à defesa arrogante do atual fundamentalismo político e sua consequente alienação política.
Essa cínica busca por bodes expiatórios é algo tão hipócrita (ou patológico) que simplesmente impede qualquer debate argumentativo. E é uma triste demonstração de arrogância e falta de autocrítica.
Seja processo psicanalítico ou hipocrisia consciente, o fato é que essa postura representa um sintoma, indicando que esse tipo de pessoa não irá nunca admitir erro algum, por mais claro e demonstrável que seja.
Demorou mas, quando percebi que esse era o caso, vi que estava enxugando gelo ao tentar debater numa boa quando o outro lado já tinha um crença enraizada que seria defendida a todo custo, inclusive adotando práticas como a desqualificação/rotulação do "adversário", mentiras, distorções de fatos e desprezo pelo pensamento crítico.
Todas as táticas risíveis que sempre criticamos na direita conservadora, agora são repetidas pela esquerda "reformista-pragmática", sem nenhum pudor ou constrangimento. E há quem ainda tenha dúvidas sobre a razão de o povo ter cada vez mais desprezo pela Política e ter dificuldades para diferenciar a esquerda da direita...
Debater sem humildade e autocrítica fica simplesmente impossível. Em alguns grupos que participei, vi somente discursos de autoelogio e aceitação passiva da teoria que melhor concretizava o desejo de confirmação ideológico entre pessoas que concordaram, a priori, com uma mesma narrativa fantasiosa. Era proibido apontar que, junto aos acertos, erros também foram cometidos, com consequências graves que nos perseguirão por décadas. Pior: tratavam os críticos como tolos-cegos-ingênuos que não enxergavam a "realidade", acessível somente a esses "sábios".
Talvez o sintoma mais surreal apareça naqueles momentos em que alguém aponta graves contradições nessa narrativa pré-estabelecida. Os malabarismos mentais para justificar o injustificável e relativizar uma contradição são impressionantes. Para mim, a experiência foi mais que impressionante: foi inacreditável. Nunca pensei que alguns amigos queridos pudessem agir de forma tão fundamentalista, cínica e arrogante.
Se esse comportamento for inconsciente, talvez até hoje eles não tenham percebido que agiram assim. Talvez nunca percebam.
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Confesso que, em 40 anos de vida, nunca pensei que fosse me afastar de amigos por causa de política. Sempre acreditei que era possível discordar em "bons termos".
Estava errado.
A dura verdade é que, a cada encontro com certos amigos, eu me sentia mais deprimido e assustado. Aquilo deixou de ser debate e discordância apenas: era falta de respeito, ausência de consideração pela análise alheia. Era postura arrogante vinda de autoproclamados "donos da verdade", sem deixar espaço para sequer questionar o que defendiam. Quando pegos em contradições, mudavam rapidamente o discurso, relativizavam o que fosse necessário, apontavam para o outro lado e gritavam "olha o lobo!", mantendo assim intacto o desejo de confirmação pré-estabelecido. E, assim, nada mudava.
Uma hora essa jornada cansa. Tentei avisar, alertei a amigos que talvez houvesse um problema não só com o que defendiam, mas com a forma como vinham defendendo, desqualificando e sendo injustos com muita gente pelo caminho. Que as escolhas que eles faziam ao lidar com as críticas (transferi-las a outros grupos, usando-os como bodes expiatórios) diziam muito mais sobre si próprios do que sobre esses outros grupos.
Mesmo sofrendo ataques e desqualificações que me assustavam pela completa ausência de realismo, tive paciência para manter a relação de amizade e explicar esses problemas por diversas vezes acreditando que, aos poucos, o bom senso prevaleceria. Fiz um esforço enorme para tentar entender o outro lado, o que defendiam, por que defendiam daquela forma, se tinham ou não consciência de certas ações e fatos. E esperava o mesmo retorno da parte deles.
Mas a coisa parece que só piorou: quanto mais eu me abria e, ainda assim, continuavam a aparecer as contradições e os riscos dos caminhos trilhados, mais agressivos e arrogantes alguns amigos se tornavam. E mais fundamentalistas se tornavam as teorias defendidas.
Então resolvi me afastar, sim, inclusive de grandes amigos que agiram assim e que supostamente estão do mesmo "lado" da minha luta política.
Não que eles tenham perdido grande coisa, sei que minha amizade plutoniana não vale nada mesmo. Não será minha ausência que os fará questionar suas posturas em debates.
Só que às vezes precisamos fazer uma escolha difícil e sair de uma relação perversa (na qual o outro lado talvez sequer percebe o mal que causa, tão forte é a crença e a arrogância) para, enfim, reencontrar um mínimo de paz interior.
Sim, há perdas nesse processo de afastamento. Paciência: nem tudo pode ser resolvido.
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Acredito em poucas coisas nesta vida.
Minha filosofia política é bastante precária e minimalista, certamente incompleta para compreensão das causas de tantas mazelas neste planeta. Procuro reconhecer erros, aprendo pelo caminho, mantenho ouvidos sempre abertos, e reflito sem nunca abandonar o pensamento crítico, uma proteção que vejo contra qualquer fundamentalismo que tente legitimar ou naturalizar escolhas humanas que geram injustiça, desigualdade e dor.
Uma realidade que aprendi a aceitar é que não há só dois lados numa luta, mesmo quando todos ao seu redor fazem chantagem para que você enxergue o mundo dessa forma binária e, assim, acabe por limitar suas escolhas (presentes e futuras). Esse maniqueísmo empobrece qualquer debate e é, por si só, conservador.
Hipocrisia e injustiças me incomodam muito e ignorá-las ou relativizá-las sempre gera retrocesso em algum momento.
Não, os fins não justificam os meios, pois os meios são parte inseparável da realidade que estamos tentando mudar.
Não, não há "menor dos males" ou "podia ser pior" que justifique o silêncio em relação a injustiças ou erros. Seja qual for o "lado" que se tente defender.
Então não, não vou nem nunca irei "pro outro lado", mas também não vou fazer parte ou usar meu tempo em um grupo que, ignorando seus próprios privilégios, não reconhece o retrocesso histórico estrutural no campo de lutas progressistas que acontece graças à defesa arrogante do atual fundamentalismo político e sua consequente alienação política.
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"(...) Existe uma espécie de autoconsagração do aparelho [político-institucional], uma teodiceia do aparelho. O aparelho sempre tem razão (e a autocrítica dos indivíduos fornece-lhe um último recurso contra o questionamento do aparelho enquanto tal). A inversão do quadro de valores, com a exaltação jacobina do político e do sacerdócio político, fez com que a alienação política (...) deixasse de ser percebida e que, ao contrário, tenha se imposto a visão sacerdotal da política, a ponto de fazer se sentirem culpados aqueles que não entram nos jogos políticos. Em outros termos, foi tão interiorizada a representação segundo a qual o fato de não ser militante, de não estar engajado na política, seria uma espécie de pecado a ser eternamente redimido, que a última revolução política, a revolução contra o clericato político, e contra a usurpação inscrita em estado potencial na delegação, continua por fazer."
(Pierre Bourdieu, em "A delegação e o fetichismo político")
"(...) Existe uma espécie de autoconsagração do aparelho [político-institucional], uma teodiceia do aparelho. O aparelho sempre tem razão (e a autocrítica dos indivíduos fornece-lhe um último recurso contra o questionamento do aparelho enquanto tal). A inversão do quadro de valores, com a exaltação jacobina do político e do sacerdócio político, fez com que a alienação política (...) deixasse de ser percebida e que, ao contrário, tenha se imposto a visão sacerdotal da política, a ponto de fazer se sentirem culpados aqueles que não entram nos jogos políticos. Em outros termos, foi tão interiorizada a representação segundo a qual o fato de não ser militante, de não estar engajado na política, seria uma espécie de pecado a ser eternamente redimido, que a última revolução política, a revolução contra o clericato político, e contra a usurpação inscrita em estado potencial na delegação, continua por fazer."
(Pierre Bourdieu, em "A delegação e o fetichismo político")
:: terça-feira, 7 de junho de 2016
Post filosófico do dia
"É um problema significativo que o silêncio e a solidão sejam condições para um ato de fala que não seja apenas expressão da tagarelice geral. E é um problema material quando vivemos a época em que todo um aparato maquínico põe e repõe a necessidade de falar, a imperiosidade de se comunicar e ser tragado pela lógica dos algoritmos. (...)"
(Silvio Pedrosa)
:: domingo, 5 de junho de 2016
Post filosófico do dia
"Hoje eu desafio o mundo
Sem sair da minha casa
Hoje eu sou um homem mais sincero e
Mais justo comigo
Podem os homens vir que
Não vão me abalar
Os cães farejam o medo,
Logo não vão me encontrar
Não se trata de coragem
Mas meus olhos estão distantes
Me camuflam na paisagem
Dando um tempo, tempo, tempo
Pra cantar"
(Trecho de "Me Deixa", O Rappa)
Sem sair da minha casa
Hoje eu sou um homem mais sincero e
Mais justo comigo
Podem os homens vir que
Não vão me abalar
Os cães farejam o medo,
Logo não vão me encontrar
Não se trata de coragem
Mas meus olhos estão distantes
Me camuflam na paisagem
Dando um tempo, tempo, tempo
Pra cantar"
(Trecho de "Me Deixa", O Rappa)
:: sábado, 4 de junho de 2016
Post filosófico do dia
"Quando então dizemos que o fim último é o prazer, não nos referimos aos prazeres dos intemperantes ou aos que ignoram o nosso pensamento, ou não concordam com ele, ou o interpretam erroneamente, mas ao prazer que é a ausência de sofrimentos físicos e de perturbações da alma. Não são, pois, bebidas nem banquetes contínuos, nem a posse de mulheres e rapazes, nem o sabor de peixes e iguarias de uma festa farta que tornam doce uma vida, mas um exame cuidadoso que investigue as causas de toda a escolha e de toda a rejeição."
(Epicuro)
---------
"Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade."
(Pepe Mujica)
(Epicuro)
---------
"Eu não sou pobre, eu sou sóbrio, de bagagem leve. Vivo com apenas o suficiente para que as coisas não roubem minha liberdade."
(Pepe Mujica)
:: quarta-feira, 1 de junho de 2016
Aprendizagem e formação: a influência do ambiente ao nosso redor
"É claro que a genética influencia em nossas habilidades e características. Mas a vivência da criança e os exemplos que ela tem dentro de casa são fundamentais para a criação deste comportamento. A capacidade de linguagem de uma criança, por exemplo, é intimamente ligada ao vocabulário da mãe, às palavras que ela fala com o bebê, só para citar um exemplo da influência do ambiente no desenvolvimento do cérebro infantil.
Sabendo desta influência tão significativa do exemplo no período de aprendizagem, o estímulo dos pais dados à criança durante a primeira infância é uma importante ferramenta para o desenvolvimento de habilidades. Não só isso. O comportamento também é moldado nesta fase. Se a mãe faz de qualquer probleminha um problemão, o cérebro da criança aprende a reagir de forma estressada a qualquer situação. Isso significa que o perfil de reação ao estresse na fase adulta é aprendido e traçado na infância. São vários fatores que moldam esta reação cerebral. Pode ser influenciada, negativamente, por violências físicas ou verbais vivenciadas logo nos primeiros anos de vida. Uma mãe que grita demais ou age em descontrole passa a mensagem para o filho de que ele deve agir desta maneira quando não conseguir fazer alguma coisa.
A boa notícia é que o carinho também molda o cérebro. São várias pesquisas científicas que compravam o carinho físico, o toque e o contato como um moldador cerebral que torna a criança mais hábil e com o sistema de proteção orgânico mais forte. Isso acontece por causa da ocitocina, um hormônio altamente influente na formação cerebral, que é produzido durante a amamentação e liberado também no abraço, no beijo, na massagem. A ocitocina é responsável por fazer com que o cérebro produza a capacidade de vínculo e acalma todas as partes cerebrais acionadas em situações estressantes. O que é uma ótima prevenção da ansiedade e outros transtornos de comportamento que, às vezes, só se manifestam na vida adulta. Receber ou não carinho modifica para sempre como o cérebro vai reagir diante do estresse e da frustração. Mas apesar de ser muito mais marcante na infância, o carinho sempre influencia. Nunca é tarde para começar.”
(Suzana Herculano-Houzel)
Sobre a luta cotidiana contra violência e preconceito
"(...) Só agora, perto dos 60 anos, vejo como errei ao presenciar, sem intervir, cenas de violência entre colegas de escola, ou de professores contra suas vítimas preferidas.
É algo que custa a aprender: levantar a voz, com autoridade serena, e dizer 'parem com isso', quando algo monstruoso acontece diante de nossos olhos. Ouvi um negro ser ofendido –e não reagi; não estava ainda na idade adulta. Por sorte, não presenciei nenhum estupro ou linchamento."
(Marcelo Coelho)
:: terça-feira, 31 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"Vivemos a sensação de que o incrível acontece e é nada além da confirmação do que já sabíamos. O que define nossa situação não é o surrealismo, mas o realismo mágico."
(Moysés Pinto Neto)
:: segunda-feira, 30 de maio de 2016
Post surreal do dia
Você percebe que é mesmo uma pessoa diferente, estranha e alienígena quando, ao passar por um grupo de jovens distribuindo abraços a todos os desconhecidos na rua, eles param imediatamente de oferecer abraços e ficam paralisados de medo até que você suma da vista deles.
E pensar que eu me considerava um alienígena inofensivo.
E pensar que eu me considerava um alienígena inofensivo.
Post filosófico do dia
"(...) Já que querem que eu me assuma como intelectual, visto a carapuça: minha qualificação é falar a partir da vivência dos terreiros e das leituras que faço dos chamamentos do tambor. E eu não falo da mirada dos candomblés não, que isso é até visto como potente por muita gente. Minha escrita e fala vem do solo fértil das macumbas mais desqualificadas mesmo, aquelas que fundamentaram o samba. Tirem isso de mim e eu não penso mais nada que preste. Podem me desqualificar tranquilamente, mas de covardia intelectual ninguém pode me acusar. Minha caneta é pemba de fé e os incomodados que se encastelem em seus doutos escritórios, salas e gabinetes. Não tomem isso como um discurso de vitimização não, que tubarão não morde quem dançou mina em maranhão e aprendeu com os mais velhos a abrir os braços sorrindo. Eu sei exatamente como fazer isso."
(Luiz Antonio Simas)
:: quinta-feira, 26 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"Dreamers
They never learn
They never learn
Beyond the point
Of no return
Of no return
And it's too late
The damage is done"
(Trecho de "Daydreaming", Radiohead)
They never learn
They never learn
Beyond the point
Of no return
Of no return
And it's too late
The damage is done"
(Trecho de "Daydreaming", Radiohead)
:: terça-feira, 24 de maio de 2016
:: quarta-feira, 18 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"Quando penso em minha história, pareço existir apenas como aquela que veio, aquela que testemunhou, aquela que ansiava por ir embora: um ser sem substância, um fantasma ao lado do corpo verdadeiro de Cruso. É essa a sina de todo contador de histórias?"
(J. M. Coetzee, in "Foe" - via Silvio Pedrosa)
Sobre o viés de confirmação
"(...) Um dos erros cognitivos mais comuns é o chamado desejo de confirmação (viés de confirmação). Este vício cognitivo nada mais é do que a tendência de buscar, interpretar, catalogar e lembrar de informações que confirmem aquilo que queremos que seja confirmado. Estamos predispostos a receber com facilidade e sem críticas as informações que tendem a solidificar nossas crenças e a rejeitar qualquer possibilidade alternativa que possa colocá-las em risco. Somos seletivos na coleta de evidências. Tendemos a ignorar ou a rejeitar qualquer informação que suporte uma conclusão diferente daquilo que acreditamos. Nossas percepções são ideologicamente enviesadas: superestimamos as informações que reforçam nossas opiniões e subestimamos o contrário. Diante de informações contraditórias sobre o mesmo assunto, valorizamos mais aquelas que se encaixam na nossa rede de crenças e lembramos com mais frequência dos dados confirmatórios, apagando inconscientemente qualquer vestígio de ameaça ou contradição. Mais ainda: estamos propensos a interpretar qualquer dado que seja apresentado como algo que confirma nossas convicções. Mesmo quando a informação parece se chocar diretamente com aquilo que defendemos, há uma inclinação em reconstruir o seu sentido para parecer favorável ao nosso ponto de vista. Ou seja, moldamos os dados para se conformarem aos nossos valores. (...)
O viés da confirmação é responsável por outro fenômeno que também prejudica nossa avaliação do mundo: a chamada 'perseverança de crenças', situação curiosa que nos leva a rejeitar qualquer informação que possa refutar nossas crenças consolidadas. De fato, nossas convicções mais profundas têm a incrível capacidade de persistir mesmo quando são mostradas evidências contrárias que levariam à sua refutação. Temos uma espécie de relação afetiva com nossas crenças. Não gostamos de vê-las enfraquecidas ou destruídas. Criamos mecanismos de defesa mental para salvá-las de qualquer ameaça, inclusive ao ponto de mantê-las vivas mesmo depois terem sido submetidas a um ataque letal. (...)
Todos nós estamos sujeitos a cometer erros cognitivos, até porque não controlamos a maior parte daquilo que processamos em nossa mente. A autocrítica, portanto, deve ser constante e intensa. Talvez sejamos nós que devemos pensar e estar dispostos a mudar de lado. (...)"
(George Marmelstein Lima, trechos de "Como compreender e conversar com alguém que não está disposto a mudar de lado" - grifo em negrito meu)
Pensamentos anarquistas sobre alianças com o diabo
“(...) Não será a primeira vez que homens hábeis, racionais, preconizadores de coisas práticas e possíveis, serão reconhecidos como utopistas, e que aqueles denominados utopistas, hoje, serão reconhecidos como homens práticos no dia seguinte. O absurdo do sistema marxista consiste precisamente nessa esperança, segundo a qual, reduzindo excessivamente o programa socialista para fazê-lo ser aceito pelos burgueses radicais, transformará estes últimos em servidores inconscientes e involuntários da revolução social.Comentário
Eis aí um grande erro; todas as experiências da história nos demonstram que uma aliança concluída entre dois partidos diferentes volta-se sempre em proveito do partido mais retrógrado; esta aliança enfraquece necessariamente o partido mais avançado, diminuindo, deformando seu programa, destruindo sua força moral, sua confiança em si mesmo; entretanto, quando um partido retrógrado mente, ele se encontra sempre e mais do que nunca em sua verdade. (...)
Quanto a mim, não hesito em dizer que todos os galanteios marxistas com o radicalismo, quer seja reformista, quer seja revolucionário, dos burgueses, não podem ter outros resultados senão a desmoralização e a desorganização do poder nascente do proletariado, e, consequentemente, uma nova consolidação do poder estabelecido dos burgueses. (...)”
(Mikhail Bakunin, em carta ao jornal La Liberté no ano de 1872 - grifos meus)
O mais triste é que as experiências históricas pós-1872 continuam a resultar exatamente no que Bakunin alertava.
Mesmo assim, muitos militantes na esquerda ainda insistem nas estratégias reformistas de "conciliação" com os donos do poder, para anos depois ter de lidar com golpes e retrocessos.
A direita nunca fará acordos que coloquem o seu poder em risco. E a direita nunca ficará satisfeita.
Denunciaremos o golpe e ela nem se abalará, permanecendo ou não no poder diretamente após as lutas das próximas semanas.
E amanhã a direita não hesitará em dar outro golpe, nem deixará de implementar seu programa de retrocesso pela via que for necessária: alianças, golpes, autoritarismo, legalismo, manipulação, moralismo ou qualquer outra, permanecendo assim (direta ou indiretamente) no poder/governo.
O "reformismo lento" se repete como farsas e tragédias por mais de um século, inclusive neste início de século XXI, e por alguma razão muitos ainda acreditam que ele pode dar certo. Ilusão pois trata-se de um jogo de cartas marcadas: a banca sempre ganha no final.
O que pode mudar essa realidade é uma forte guinada de estratégia na esquerda, deixando definitivamente de acreditar na ingênua tática da "conciliação" pela "governabilidade".
Penso que, enquanto não houver autocrítica, estamos fadados a repetir esse erro eternamente.
:: terça-feira, 17 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"A melhor lição extraída de tudo é que as pessoas que têm mais valor são as que divergem muito de você, mas têm integridade/coerência."
(Jane Reis, @ajanereis)
:: segunda-feira, 16 de maio de 2016
Estratégias e a repetição do passado
- Na Folha: Contra terrorismo, EUA e potências admitem armar governo da Líbia
Comentário
Ainda bem que não tem nenhuma chance de essa estratégia dar errado, não é mesmo?
"A História se repete..."
Comentário
Ainda bem que não tem nenhuma chance de essa estratégia dar errado, não é mesmo?
"A História se repete..."
:: domingo, 15 de maio de 2016
:: sábado, 14 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"Everybody's been there
Everybody's been stared down
By the enemy
Fallen for the fear
And done some disappearing
Bowed down to the mighty
Don't run
Stop holding your tongue
Maybe there's a way out
Of the cage where you live
Maybe one of these days
You can let the light in
Show me
How big your brave is
Say
what you want to say
and let the words fall out
Honestly
I wanna see you be brave
With what you want to say
And let the words fall out
Honestly
I wanna see you be brave"
(Trecho de "Brave", de Sara Bareilles)
Everybody's been stared down
By the enemy
Fallen for the fear
And done some disappearing
Bowed down to the mighty
Don't run
Stop holding your tongue
Maybe there's a way out
Of the cage where you live
Maybe one of these days
You can let the light in
Show me
How big your brave is
Say
what you want to say
and let the words fall out
Honestly
I wanna see you be brave
With what you want to say
And let the words fall out
Honestly
I wanna see you be brave"
(Trecho de "Brave", de Sara Bareilles)
:: sexta-feira, 13 de maio de 2016
Ponte para o passado: golpe, conservadorismo e retrocessos
- Bernardo Mello Franco: "Direita, volver"
"A posse de Michel Temer deve marcar a mais brusca guinada ideológica na Presidência da República desde que o general Castello Branco vestiu a faixa, em abril de 1964. Após 13 anos de governos reformistas do PT, o país passa ao comando de uma aliança com discurso liberal na economia e conservador em todo o resto. O eleitor não foi consultado sobre as mudanças.
O cavalo de pau fica claro na escalação do ministério, que sugere desprezo à representação política das minorias. Ao substituir a primeira presidente mulher, Temer montou uma equipe só de homens, o que não acontecia desde a era Geisel. Os negros também foram barrados na Esplanada.
O Ministério da Educação foi entregue ao DEM, partido que entrou no Supremo contra as ações afirmativas. A pasta do Desenvolvimento Social, responsável pelo Bolsa Família, acabou nas mãos de um deputado do PMDB que já se referiu ao benefício como uma "coleira política".
Para a Justiça, Temer escolheu o secretário de Segurança de São Paulo. Ele assume com explicações a dar sobre violência policial e maquiagem de estatísticas de criminalidade. (...)"
(grifo em negrito meu)
:: quinta-feira, 12 de maio de 2016
Post filosófico do dia: "Olhos Insanos"
"A lembrança do silêncio daquelas tardes
Daquelas tardes
A vergonha do espelho naquelas marcas
Naquelas marcas
Havia algo de insano naqueles olhos,
Olhos insanos
Os olhos que passavam o dia a me vigiar, a me vigiar..."
(Trecho de "Camila, Camila", Nenhum de Nós)
Daquelas tardes
A vergonha do espelho naquelas marcas
Naquelas marcas
Havia algo de insano naqueles olhos,
Olhos insanos
Os olhos que passavam o dia a me vigiar, a me vigiar..."
(Trecho de "Camila, Camila", Nenhum de Nós)
Sobre a prisão da vida acadêmica
"Pela primeira vez alguém em quase desespero me pede seriamente um conselho sobre o que fazer da vida acadêmica. Logo pra mim, que escapei dela voluntariamente, por absoluta incompatibilidade, falta de traquejo e disposição para as excelências. Sou do bonde do chutar o pau da barraca, botar as caras, escrever, estudar, escutar o caboclo, encantar a palavra, cagar pro figurão, ousar na forma, pintar os cacetes, desconfiar dos títulos, deixar de virar lattes para virar as latas nas esquinas mais vagabundas, brincar com o conhecimento, escrever história como crônica e crônica como história, molhar a palavra com a cangebrina, fazer aviãozinho com os diplomas (inclusive os meus, que estão em algum canto da gaveta) e gostar das literaturas que a academia, adepta do rigor necessário, não admite. Aguerezar (gosto de inventar palavras) a escrita, em suma. Texto é encantaria. Imagine eu numa reunião de departamento... É ruim. Garanto que sou a pior pessoa para dar conselhos num caso desses. Não sei nem me vestir, conforme atesta, aterrorizada, a Candida Carneiro."
(Mestre Luiz Antonio Simas)
A ilusão do avanço/progresso capitalista
"(...) Avanço, naturalmente, é a ideologia do capitalismo numa palavra. O capitalista vai dizer (e de fato acredita) que a lama no Rio Doce, o desmatamento da Amazônia, a acidificação dos oceanos e a torrefação do planeta são todos inconvenientes gerenciáveis num caminho que é justificado pelos seus avanços – avanços tecnológicos, científicos e (se o cabra for realmente cara de pau) sociais e políticos. Imperialista e militarista em sua origem, o uso da palavra não esconde (e portanto esconde) que avançar é essencialmente pisotear e destruir, e que não há nada 'gerenciável' ou 'sustentável' em continuar avançando como se fosse possível fazê-lo para sempre.
Tratando-se, como apontou Ursula K. Le Guin, da apropriação ideológica dos desejos e dos métodos do câncer (que não aspira a outra coisa, ele também, além de avançar), nenhum outro sistema de dominação mostrou-se mais eficaz e mais resistente do que o capitalismo – talvez porque nenhum estabeleceu para si projeto mais bombástico e justificativa mais pobre. O projeto do mercado, sua declaração de missão, é crescer sem pausa até sujeitar à produtividade cada centímetro, cada movimento e cada organismo do planeta, quem sabe do universo – como se a plena produtividade fosse algo possível e, muito mais sério, como se fosse algo desejável.
É claro que o sistema vai falir muito antes de alcançar esse pesadelo de escatologia realizada. É claro que um sistema que é um câncer vai se inviabilizar muito antes de ter incorporado tudo que gostaria, mas o que conta é que os avanços mais destruidores serão os últimos, aqueles que estão ainda por vir. (...)
O capitalismo é singular em sua capacidade de incorporar os seus críticos e no fato de, estando baseado na competição, beneficiar-se da existência de competidores em vez de perder com a presença deles. Isso quer dizer que num sentido importante o capitalismo não tem competidores e não tem cura. O único modo de vencer o capitalismo é/seria/permanece ignorá-lo em vez de combatê-lo, mas essa sorte de descolonização é tremendamente difícil de efetuar na vida real. O capitalismo se beneficia do fato de que é fácil ensinar as pessoas a desejar, é difícil ensiná-las a deixar de desejar.
A única verdadeira competição que o capitalismo enfrenta, portanto, é da parte dos que decidiram que não precisam dele, ou decidiram que dele precisam minimamente: índios, sertanejos, ribeirinhos, caiçaras, quilombolas, caipiras, beiraqueras, preguiçosos, saltimbancos, subsistentes, maloqueiros, encantados, maltrapilhos, desalinhados, hobbits: gente da rua, da beira da estrada, da orla do rio e do pé da serra. Esses homens e mulheres, que ousam desejar outra coisa – qualquer outra coisa, – representam uma verdadeira ameaça ao capitalismo no simples fato de existirem. O discurso do capitalismo é onipresente e para todos os efeitos todo-poderoso, mas o modo de vida de gente livre e autônoma pode, incrivelmente, ainda mais: pode até 'servir' para descolonizar gente cativa da sua servidão. (...)"
(Paulo Brabo, em "A Ponte para o Futuro Menor Possível")
Em tempos de golpe, uma oportunidade para reflexão
- Daniel Mittelbach: "A Extensão de Nossos Equívocos"
"A partir desta quinta-feira, 12 de maio, inicia-se um novo capítulo na história do Brasil e também na militância de esquerda, principalmente do PT e da CUT. Minha geração será incumbida da difícil tarefa de fazer uma avaliação desapaixonada dos erros e acertos desse ciclo que se finda. Não falo aqui da catarse pela qual passam aqueles que, no mínimo, desde a década de 90 ajudaram a construir o projeto que o PT consolidou à frente do país. Essa geração não tem como se desvencilhar da carga emocional de seus 25-30 anos de militância. Já nós, que temos 25-30 anos de idade, precisamos seguir atentamente os ensinamentos marxistas de estudar atentamente a história e aprender com ela.
Não há quem negue a consolidação de direitos, a ampliação das oportunidades e o avanço social dos últimos 13 anos. Mas a nós não nos cabe fazer a defesa apaixonada dessas conquistas, sem ignorar os custos e as condições objetivas que nos levaram a elas. É claro que comemoramos e seguiremos defendendo cada uma delas. Entretanto, é nosso dever avaliar como chegamos até aqui e qual a extensão de nossos equívocos. Vivemos nestes 13 anos, da Carta ao Povo Brasileiro ao afastamento de Dilma Rousseff da presidência, um período de conciliação de classes que o ex-presidente Lula sempre descreveu muito bem: 'um governo onde todos ganham'. O processo de escalada social foi descrito como o ascenso daqueles do 'andar de baixo' que subiram alguns degraus, sem todavia, incomodar àqueles do 'andar de cima'.
Eis aqui nosso primeiro equívoco, o de acreditar que esse processo reduziu a desigualdade social. Esse é nosso conto de fadas moderno. Ao contrário do que pregavam os militares de que 'era necessário primeiro fazer o bolo crescer, para depois dividi-lo', nos últimos anos o que fizemos foi fazer o bolo crescer e dividir com todos. O problema era o tamanho de cada pedaço. A política desenvolvimentista sempre priorizou as extremidades da régua social, em primeiro lugar os mais ricos, em segundo lugar os mais pobres, em terceiro os demais. E demos muito mais aos ricos do que aos pobres, iludidos por uma questão de percepção. Aos que nada tinham, o pouco que se lhes deu muito parecia. Aos que tudo tinham não havia migalhas suficientes que saciassem sua ganância. E enquanto o bolo crescia, essa lógica prosperou. Ao final do processo, erradicamos a fome nivelando os miseráveis à classe trabalhadora inserida na sociedade de consumo e criando um imenso exército de reserva, digno de qualquer país europeu pós-revolução industrial no início do século XIX. De outro lado, enriquecemos banqueiros e donos dos meios de produção até onde sua ganância conseguiu nos chantagear. Assim, na prática, aumentamos a distância real entre as classes antagônicas eternamente em disputa no sistema capitalista.
O segundo equívoco foi a forma encontrada (ou aceita) de se fazer essa transformação social no Brasil. Jogar o jogo da política brasileira. E o jogo, meus caros, o jogo é pesado. 500 anos de uma cultura política centrada no coronelismo (das capitanias hereditárias aos redutos eleitorais) e no patrimonialismo (dos escambos ao dinheiro na cueca) fizeram do jogo do Poder um lupanar que, definitivamente, não é para os incautos. E esse é o problema de chegar ao governo, sem, contudo, chegar ao poder. Dos manuais mais básicos de política, Maquiavel já nos advertia que não era possível governar sem 'sujar as mãos'. O problema foi maquiar essa relação, não deixar claro para a população que havia uma disputa interna sobre os rumos do país. O erro foi não nos armar para fazer o enfrentamento direto, para realizar as reformas estruturais, para mudar as regras do jogo, para consolidar uma condição objetiva de se chegar, de fato, ao poder. Quando Lula falou que o 'governo era igual feijão, só funcionava na pressão', achamos que essa era a senha para nossa mobilização, quando na verdade não passava de uma advertência para dizer que a pressão do Capital sempre foi mais efetiva do que a nossa. E ao não perceber isso, o movimento sindical e o conjunto dos movimentos sociais se fecharam, cada um em sua pauta umbiguista, sem olhar para o todo. E competimos entre nós para ver quem fazia mais pressão e conquistava mais migalhas, em vez de construir a necessária unidade para enfrentar o real inimigo.
O terceiro equívoco foi interno. Deixamos de fazer formação, e por isso mesmo, perdemos a noção do todo. A consequência direta foi que deixamos de disputar a sociedade. Sim, se é verdade que o governo deixou de fazer a democratização dos meios de comunicação e de disputar ideologicamente os rumos da educação, permitindo o surgimento de uma geração plena de direitos que os vê como atávicos e sequer é capaz de reconhecê-los como conquistas, também é verdadeiro que tampouco nós e nossas entidades cumpriram com esse papel. Abdicamos de formar e disputar a opinião pública.
Interno também, o quarto equívoco é a ilustração do famoso paradoxo de Tostines. Foi a consolidação de uma majoritária fisiológica no PT e na CUT que garantiu a tranquilidade do governo na construção da governabilidade através de uma maioria fisiológica no congresso, ou foi a construção da governabilidade através de uma maioria fisiológica no congresso que permitiu a consolidação de uma majoritária fisiológica no PT e na CUT? Seja uma ou outra, pouco importa, o fisiologismo de muito militantes e parlamentares serviu para arrefecer a luta em diversos momentos. Agora, mais próximo ao fim do ciclo, quando a conjuntura não mais facultava essa possibilidade, os fisiológicos enfrentaram um dilema. Alguns, com alguma galhardia, tentam recuperar sua audácia e valentia. Outros, simplesmente, abandonam o barco ou trocam de trincheira.
Por fim, o último equívoco é o que podemos cometer daqui para frente. Nossa tarefa, a partir da autocrítica, é buscar novos (ou velhos) caminhos para trilhar, evitando os erros do passado. Não há porque renegar nossa história, a menos que queiramos uma desculpa para cometer os mesmos erros no futuro. É hora de se reinventar. Investir na formação política e na construção da unidade da esquerda, sem sectarismos, sem arrogância. Disputar a opinião pública, a mente e o coração das novas gerações. E, por fim, como nos ensinou o saudoso Mario Lago, do auge dos seus 78 anos, após a derrota de Lula na eleição de 89, quando alguém perguntou 'e agora, o que nós vamos fazer?', com sua tranquilidade histórica: 'Uai, a gente começa tudo de novo'."
(grifo em negrito meu)
Voz política
Sou um ser de Plutão. Este planeta Terra é todo estranho pra mim.
Tenho muito ainda a aprender sobre política, e certamente tenho pouca ou nenhuma voz para mudar alguma coisa positivamente neste planeta maluco.
Mas uma coisa eu sei: essa minha pouca voz, se um dia vier a servir para algo, não será para defender algo tão covarde como a tal ilusão da "necessidade de governabilidade".
Boa sorte, terráqueos.
Vocês vão precisar.
Tenho muito ainda a aprender sobre política, e certamente tenho pouca ou nenhuma voz para mudar alguma coisa positivamente neste planeta maluco.
Mas uma coisa eu sei: essa minha pouca voz, se um dia vier a servir para algo, não será para defender algo tão covarde como a tal ilusão da "necessidade de governabilidade".
Boa sorte, terráqueos.
Vocês vão precisar.
:: quarta-feira, 11 de maio de 2016
Post surreal do dia: "Diálogos Malucos"
— "Cara, entenda: a atual política é um teatro, uma cena de caça do gato ao rato onde atores se revezam em cada papel para dar a aparência de um embate a favor do 'bem comum'."
— "E você é quem nesse jogo?"
— "Um urso polar."
— "E você é quem nesse jogo?"
— "Um urso polar."
Resumo do dia
"O grotesco do que ocorre hoje pode ser resumido no seguinte: Na agricultura o Brasil trocará Katia Abreu por Blairo Maggi. Sem comentários."
(Luiz Antonio Simas, @simas_luiz)
Sobre democracia e poder
"Diria que a democracia é menos um conceito genérico do que ambíguo. Usamos esse conceito como se fosse a mesma coisa na Atenas do século V e nas democracias contemporâneas. Como se estivesse em todos os lugares e sempre bem claro de que se trata. A democracia é uma ideia incerta, porque significa, em primeiro lugar, a constituição de um corpo político, mas significa também e simplesmente a tecnologia da administração – o que temos hoje em dia. Atualmente, a democracia é uma técnica do poder – uma entre outras.
Não quero dizer que a democracia é ruim. Mas façamos esta distinção entre democracia real como constituição do corpo político e democracia como mera técnica de administração que se baseia em pesquisas de opinião, nas eleições, na manipulação da opinião pública, na gestão dos meios de comunicação de massa etc. A segunda versão, aquela que os governantes chamam democracia, não se assemelha em nada com aquela que existia no século V a.C. Se a democracia for isso, simplesmente não me interessa.
Creio, pois, que cada um deva tomar aquilo que acha interessante em cada ponto, e não se meter a apresentar receitas. Não podemos usar a democracia como novo paradigma, se não dissermos o que é hoje a democracia. Se quisermos propugnar a democracia, devemos pensar algo que não tenha relação alguma com aquilo que hoje se chama democracia."
(Giorgio Agamben - grifo em negrito meu; texto compartilhado por Priscila Pedrosa Prisco e Gabriel Pavani)
Para reflexão em tempos sombrios: sobre reformismo, casuísmo e a ilusão da democracia liberal
"O que vai acontecer hoje só demonstra a fragilidade da tese que boa parte da esquerda ainda cultiva: a de que vivemos em uma democracia consolidada e as instituições estão firmes devido ao seu anteparo jurídico-constitucional. A deposição ilegal e ilegítima de uma governante pelos derrotados que pretendem implementar contra a vontade popular seu programa mostra que nunca houve tal estado. Na realidade, testemunhamos mesmo entre os hoje depostos a utilização frequente de mecanismos de exceção durante seu governo. O erro do casuísmo que tem preponderado na esquerda no uso do conceito, portanto, está atrelado à adoção implícita ou explícita da teoria liberal do Estado, acreditando que o direito é a base firme que serve de infraestrutura à política, como sua camada profunda, enquanto nesta se passariam os jogos contingentes de conjuntura. Nada está garantido nunca, esse 'dever ser' não pode ser projetado sobre o 'ser', esse wishful thinking constitucionalista precisa finalmente ser corrigido por outras visões mais materiais e realistas. Se algo manteve em pé governos de esquerda, foi sua legitimidade política e a possibilidade de, com respaldo nessa legitimidade, implementar transformações na sociedade. No momento em que se depende exclusivamente da base jurídica como salvaguarda institucional, fica exposta a fragilidade teórica da teoria liberal.
A perspectiva de Walter Benjamin e Giorgio Agamben defendida por segmentos minoritários e muitas vezes ridicularizada como 'esquerdismo' ou 'exagerada', em contraponto, permite visualizar com clareza que o fundamento do poder estatal é e sempre será político, que as democracias ocidentais jamais aboliram a exceção como válvula de segurança e que cada vez mais, como testemunham os oprimidos, esse estado de exceção torna-se a regra. Promover transformações políticas reformistas significa saber negociar com esse fato até o instante em que a única saída legítima é perder dignamente. Promover transformações políticas revolucionárias poderia significar, por outro lado, desativar essa maquinaria complexa e pensar um modelo que elimine, definitivamente, a exceção como matriz oculta do direito moderno."
(Moysés Pinto Neto - grifo meu)
Sobre o mito da conciliação com os poderosos em nome da "governabilidade"
Não existe essa de negociar com os corvos donos do poder, amizade.
Ou você os enfrenta de verdade desde o início, ou você vai acabar num fim melancólico.
Esses caras não têm vergonha de nada. Não há limites. São conduzidos unicamente por uma cínica ganância crescente e sem fim. Não há acordo que os faça desejar menos do que toda a riqueza do mundo e mais um pouco.
Portanto, em nome de um suposto "realismo" (ultra-covarde, determinista e conformista), fazer barganha com essa gente sempre foi e sempre será uma ilusão e um erro grave da esquerda reformista.
Monta-se uma bomba-relógio que um dia explode na sua cara, sempre com muito mais força do que se imagina. O retrocesso será sim, enorme, mas falar isso não basta: você tem culpa nisso, amizade. E não faltou aviso.
Fato é: você dá ao longo de anos todos os seus anéis, faz dívida pra comprar mais anéis, cria fábricas de anéis na terra de índios inocentes, enfim, aceita todo tipo de demanda dos caras para supostamente salvar seus dedos como se essa fosse a "única saída", o "único jeito" de tentar ao menos fazer algo positivo.
Mas não adianta: ainda assim, em algum momento esses caras vão querer seus dedos, pois eles são a representação política mais óbvia de um sistema socioeconômico ganancioso e sem limites.
E esse sistema, amizade, você não quis enfrentar. Era "muito difícil", as "condições não permitiam", e então isso virou uma profecia autorrealizável: você optou pela saída fácil, conveniente e fracassada da conciliação com os poderosos.
E você, por já ter oferecido os anéis em nome de uma ilusória "governabilidade", virou refém eterno dessa chantagem, pois já mostrou que não tem força, vontade ou coragem para mudar nada estruturalmente.
Lamento informar: agindo assim, você será vítima de chantagens e golpes pelo resto da vida.
O mais incrível é que, mesmo com tudo isso acontecendo, ainda há reformistas insistindo que "não tinha outro jeito".
Amizade, chega, né. Tinha e tem outro jeito, sim. Muitos outros jeitos. Mas que exigem pensamento crítico e diferente desse teu.
Você é que não é a pessoa adequada pra tocar um projeto de esquerda diferente e que enfrente esse sistema injusto de verdade.
É só isso, amizade.
Na boa. Na paz.
Ou você os enfrenta de verdade desde o início, ou você vai acabar num fim melancólico.
Esses caras não têm vergonha de nada. Não há limites. São conduzidos unicamente por uma cínica ganância crescente e sem fim. Não há acordo que os faça desejar menos do que toda a riqueza do mundo e mais um pouco.
Portanto, em nome de um suposto "realismo" (ultra-covarde, determinista e conformista), fazer barganha com essa gente sempre foi e sempre será uma ilusão e um erro grave da esquerda reformista.
Monta-se uma bomba-relógio que um dia explode na sua cara, sempre com muito mais força do que se imagina. O retrocesso será sim, enorme, mas falar isso não basta: você tem culpa nisso, amizade. E não faltou aviso.
Fato é: você dá ao longo de anos todos os seus anéis, faz dívida pra comprar mais anéis, cria fábricas de anéis na terra de índios inocentes, enfim, aceita todo tipo de demanda dos caras para supostamente salvar seus dedos como se essa fosse a "única saída", o "único jeito" de tentar ao menos fazer algo positivo.
Mas não adianta: ainda assim, em algum momento esses caras vão querer seus dedos, pois eles são a representação política mais óbvia de um sistema socioeconômico ganancioso e sem limites.
E esse sistema, amizade, você não quis enfrentar. Era "muito difícil", as "condições não permitiam", e então isso virou uma profecia autorrealizável: você optou pela saída fácil, conveniente e fracassada da conciliação com os poderosos.
E você, por já ter oferecido os anéis em nome de uma ilusória "governabilidade", virou refém eterno dessa chantagem, pois já mostrou que não tem força, vontade ou coragem para mudar nada estruturalmente.
Lamento informar: agindo assim, você será vítima de chantagens e golpes pelo resto da vida.
O mais incrível é que, mesmo com tudo isso acontecendo, ainda há reformistas insistindo que "não tinha outro jeito".
Amizade, chega, né. Tinha e tem outro jeito, sim. Muitos outros jeitos. Mas que exigem pensamento crítico e diferente desse teu.
Você é que não é a pessoa adequada pra tocar um projeto de esquerda diferente e que enfrente esse sistema injusto de verdade.
É só isso, amizade.
Na boa. Na paz.
___________
"Quando a esquerda evita falar sobre os seus próprios erros e se recusa a discuti-los à luz do dia, ela não está, afinal, se protegendo da direita: está protegendo o conservadorismo que conseguiu se infiltrar no interior dela mesmo."
(Leandro Konder)
"Quando a esquerda evita falar sobre os seus próprios erros e se recusa a discuti-los à luz do dia, ela não está, afinal, se protegendo da direita: está protegendo o conservadorismo que conseguiu se infiltrar no interior dela mesmo."
(Leandro Konder)
Post filosófico do dia
"O capital não teme discursos ou manifestos. Teme ações concretas."
(Andrea Caldas)
:: terça-feira, 10 de maio de 2016
Desigualdade social, justiça e a farsa do neoliberalismo
"(...) O neoliberalismo de fato pede que você acredite que a mão invisível/divina do mercado promoverá sem qualquer intervenção a justiça social – punindo quem deve ser punido e premiando quem merece ser premiado. Você não tem de se preocupar com nada: tudo já foi previsto. Ninguém precisa intervir, muito menos o governo, muito menos você. Fique aí paradinho e não queira interferir no fluxo natural das coisas. Se você ainda enxerga alguma injustiça é porque o processo está se desenrolando; deixe o mercado trabalhar livremente e você vai ver um mundo cada vez mais ajustado e mais justo.
Permita-me acordar o seu idealista interior com um tabefe: o capitalismo não está produzindo um mundo mais justo. Com a sua conivência e a minha, o que ele está fazendo é queimando os recursos que pertencem a todos na criação de um mundo cada vez mais desigual.
Se você ainda não percebeu que as coisas são assim não creio que se convencerá mesmo diante dos argumentos que eu teria para apresentar. Por hora terá de bastar esta única e desiludida partícula de informação, a notícia de que o capitalismo não está promovendo a justiça nem mesmo dentro do país que mais se beneficia dele.
Entre 1980 e 2007 a desigualdade na distribuição de renda – o índice que mede a distância entre os ricos e os pobres – aumentou exponencialmente nos Estados Unidos.
E essa, incrivelmente, é a boa notícia.
Porque, por mais que a desigualdade social e econômica apenas se acentue entre os norte-americanos, a situação é pior nos países que o capitalismo utiliza como parque industrial.
Pense muito pior.
Pense acima de tudo no Brasil, porque conhecemos há anos a honra de estar e de permanecer entre os dez países mais desiguais do mundo no que diz respeito à distribuição de renda, ao lado de nações como a Jamaica, a Namíbia, a Zâmbia, Honduras e Paraguai. O Brasil é notavelmente mais rico do que esses países, o que torna a distância entre ricos e miseráveis ainda mais obscena e inaceitável.
Para seu governo: o capitalismo não está distribuindo justiça de modo automático a ninguém, não aqui e não em lugar algum. Deixada a seus próprios recursos, o que a mão do mercado faz é visivelmente acentuar as distinções estabelecidas, privilegiando os privilegiados e cerceando as possibilidades dos que não conheceram privilégio algum. (...)"
(Paulo Brabo - grifos meus)
:: segunda-feira, 9 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"We became the parade on the streets that we once cleaned
Expendable soldiers smiling at anything
Raised on a feeling our lives would have meaning eventually
We were once the answer and then you discover
You're actually just one thing after another
And what was the question and why was the lesson so deafening?
This is all that matters now
And that was all that happened anyhow
You can look back but don't stare
Maybe I can love you out of there
And when I went away what I forgot to say
Was all I had to say:
Eight letters, three words, one meaning"
(Trecho de "Eight Letters", Take That)
Expendable soldiers smiling at anything
Raised on a feeling our lives would have meaning eventually
We were once the answer and then you discover
You're actually just one thing after another
And what was the question and why was the lesson so deafening?
This is all that matters now
And that was all that happened anyhow
You can look back but don't stare
Maybe I can love you out of there
And when I went away what I forgot to say
Was all I had to say:
Eight letters, three words, one meaning"
(Trecho de "Eight Letters", Take That)
Direita e esquerda: posições relativas ou absolutas?
"(...) Style more than substance separates Trump from Hillary Clinton. After all, Trump was a generous donor to Clinton's senate campaigns, and also to the Clinton Foundation. Hillary is nevertheless disingenuously promoting herself as the centrist between an extreme right-winger (Trump) and an 'extreme left-winger' (Sanders). Abortion and gay marriage place her on a more liberal position on the social scale than all of the Republicans but, when it comes to economics, Clinton's unswerving attachment to neoliberalism and big money is a mutual love affair.Comentário
Quite why Sanders is describing himself to the American electorate — of all electorates — as a 'socialist' or 'democratic socialist' isn't clear. His economics are Keynesian or Galbraithian, in common with mainstream parties of the left in the rest of the west — the Labour or Social Democrat parties. Surely 'Social Democrat' would be a more accurate and appealing label for the Sanders campaign to adopt. While Sanders claims to admire particularly the Scandinavian model, he neglects to point out that a characteristic of all social democracies is a low defence budget, reflecting not only a degree of anti-militarism, but also social spending as a priority. Beyond tinkering, though, Sanders has no appetite for significantly cutting the Herculean defence budget or criticising imperial adventures. His urging for the World's most authoritarian country, Saudi Arabia, to assert a stronger military presence in the Middle East is a bizarre position for a social democrat to hold. These odd clusters of attitudes are reflected in our placement of Sanders. Domestically the man is an undoubted progressive — not the least for his courageous attack on corporate campaign funding. But on foreign policy, you could expect a President Sanders to be strikingly similar to his predecessors."
(The Political Compass - The US Primary Candidates 2016)
Esse é um excelente exemplo da tendência global de como o debate político tem sido empurrado para a direita em termos estruturais, sendo que isso muitas vezes fica escondido quando se observa superficialmente e pontualmente duas candidaturas supostamente "antagônicas" numa eleição qualquer.
Hillary Clinton está certamente mais à esquerda do que Donald Trump e do que qualquer candidato republicano, assim como Bernie Sanders está mais à esquerda que Hillary. Mas todos eles estão longe, muito longe de representar escolhas estruturais de esquerda.
O que temos são tão somente comparações relativas entre "esquerda" e "direita" que ajudam a confundir (ou esconder) a realidade. Na prática, a disputa eleitoral se dá praticamente toda no campo absoluto da direita autoritária (como demonstra o gráfico acima).
Há um impacto seríssimo de não se reconhecer esse fato de que o verdadeiro campo de disputa está concentrado na direita: cria-se uma ilusão de que haveria candidatos de esquerda em termos absolutos, quando isso não é verdade.
Essa distorção é proposital. Ela é incentivada pelo atual sistema eleitoral, pois é uma barreira importante (superestrutural) para impedir mudanças estruturais. Cria-se a farsa da disputa ideológica ampla, "democrática", quando na prática a divergência entre os candidatos é muito menor do que se imagina, pois limita-se a "mais opções de direita" ou "menos opções de direita" — não há uma agenda de opções de esquerda em disputa.
E não, isso não ocorre somente nos Estados Unidos.
O atual e excludente sistema socioeconômico consegue sempre, por meio da inércia das regras do jogo político e pelo uso distorcido dessas falsas polarizações, levar toda a disputa política mais para a direita em todos os países, ano após ano, cada vez mais em direção a um conservadorismo que não ouse pensar em algo novo.
Os "antagonismos" entre candidatos e partidos ainda existem, mas são limitados ao campo de centro-direita — não se discute, por exemplo, sequer uma única mudança estrutural no sistema socioeconômico. Um político que defenda um simples keynesianismo (uma política econômica mais intervencionista, mas que em nada muda o sistema estruturalmente) já é visto equivocadamente por muitos como se fosse um socialista/comunista (tanto pelos opositores como por seus próprios correligionários).
Entendam a gravidade dessa situação: não há sequer espaço para debate a respeito de temas estruturais. Foram criados limites artificiais, rígidos e reducionistas para as disputas. Diversos assuntos e alternativas se tornaram gradualmente tabus e foram simplesmente retirados da pauta política sem que ninguém ficasse alarmado, ou seja, deixaram de ser objeto de reflexão pela sociedade.
Os impactos negativos dessa redução de espaço para pensamento crítico e inovação são gigantescos, mas poucos conseguem perceber esse retrocesso no curto prazo.
Há, assim, uma naturalização forçada do atual sistema, mas isso ocorre fazendo parecer que há "livre democracia" e "opções de escolha".
Ou seja, essa ilusão ganha força mesmo quando candidatos ditos de esquerda disputam e ganham eleições com slogans de "mudança" e "esperança", e até quando ficam no poder por décadas. Na prática, contudo, o sistema socioeconômico (a causa geradora das desigualdades e demais problemas sociais) permanece intocável — ou pior, se fortalece no vácuo deixado por essa ilusão.
Essa ilusão de progresso se torna ainda mais forte pois alguns sintomas dos problemas sociais são verdadeiramente (e com boas intenções) enfrentados pelos governos reformistas: remédios pontuais são implementados via políticas sociais compensatórias importantes, mas nada muito além disso e nada que afete a renda e o modo de viver dos mais ricos, tampouco mude o sistema de exploração e precarização do trabalho.
Assim, em pouco tempo a inércia estrutural e os limites do modelo econômico capitalista (cujas crises cíclicas continuam a ocorrer) tratam de impor travas inclusive a esses avanços pontuais e, gradualmente, esses poucos avanços são revertidos para dar início a um novo ciclo de acumulação (não importando quem for o presidente). Essa é talvez a maior contradição nunca discutida profunda e abertamente ao analisar os resultados efetivos da social-democracia reformista:
"(...) tendo fortalecido o mercado, os social-democratas perpetuam a necessidade de atenuar os efeitos distributivos da sua operação. As reformas sociais sequer precisam ser ‘desfeitas’ pelos governos burgueses. Basta permitir que o mercado opere por si mesmo durante um período qualquer de tempo em que as desigualdades crescem, o desemprego flutua, as mudanças de demanda no mercado de trabalho expõe novos grupos ao empobrecimento, etc. (...) Os social-democratas encontram-se na mesma situação que Marx atribuiu a Louis Bonaparte: suas políticas parecem contraditórias, desde que são coagidas a fortalecer a capacidade produtiva do capital e, ao mesmo tempo, contra-atacar seus efeitos."
(Adam Przeworski, trecho de "A social-democracia como fenômeno histórico")
(Adam Przeworski, trecho de "A social-democracia como fenômeno histórico")
Percebam que, quando a esquerda reformista-pragmática vence uma eleição sem adotar uma pauta estrutural e fazendo acordos com a direita para chegar e permanecer no poder, a direita não sofre absolutamente nenhum risco de ameaças estruturais. Pelo contrário, a direita é frequentemente chamada para participar dos governos de esquerda em nome da "governabilidade" (ministros de direita são indicados com a justificativa de "necessidade do momento").
Assim, durante todos os anos de governo "progressista", a direita se aproveita para acumular lucros e estruturar tranquilamente suas táticas contra-ofensivas para, na próxima crise do sistema ou quando o reformismo encontrar seu previsível limite (não há como avançar além de certo ponto sem mudanças estruturais), implementar novas pautas conservadoras e retirar direitos das classes subalternas.
Essa é a grande ilusão de progresso que, estruturada pelas forças de direita, foi ingenuamente alimentada pelo reformismo-pragmático que parte da esquerda aceitou como "único jeito" de fazer parte do jogo eleitoral. Mais preocupante ainda, talvez os pragmáticos não tenham percebido a grave situação que essa escolha reformista perpetua nas disputas efetivas por poder (não só eleitorais), nem percebam que o jogo estava comprometido com cartas marcadas a favor da direita desde seu início.
A única vitória possível nesse cenário é uma vitória de Pirro. E há quem a comemore ferozmente, pois defender a ilusão é mais fácil e conveniente do que reconhecer seus próprios erros, algo que exige grandeza e humildade. O que temos, hoje, porém, é apenas cinismo e hipocrisia, de todos os lados.
Quando um candidato progressista não se preocupa em enfrentar o sistema para implementar uma verdadeira agenda de esquerda (que envolva mudanças estruturais), usando sempre como justificativa a mítica e covarde lamentação a priori da "impossibilidade de mudança por causa da atual correlação de forças", e quando esse candidato apenas se preocupa em ser "menos de direita" que seus adversários (ainda que ele, claro, venda-se publicamente como "candidato do povo e da esquerda"), o resultado alcançado após anos de luta é tão somente esse: a correlação de forças se torna ainda pior para implementar uma agenda de esquerda.
Irônico, não é mesmo? A impossibilidade de mudança se torna uma profecia autorrealizável, retroalimentada pela própria candidatura de esquerda (sic) que não ousa enfrentar as contradições de suas escolhas. Ao final, as condições para mudança tornam-se ainda piores do que quando essa esquerda assumiu o poder via eleições.
Essa é a grande contradição que precisa ser enfrentada: após anos de governos supostamente progressistas-reformistas, há que se reconhecer a existência de algo muito equivocado nessa estratégia quando, ao final do processo, a sociedade civil se torna menos adepta a mudanças progressistas do que quando se iniciou o processo.
A esquerda reformista-pragmática, após assumir o poder, sempre exigiu o silêncio absoluto (com doses de autoritarismo e chantagem) do restante da esquerda em relação às pautas da agenda estrutural, usando como justificativa um argumento falacioso e risível de que cobrar tais ações "ajudaria a direita". Isso é completamente absurdo, uma tentativa de má-fé desesperada para não ter que tratar do grave erro do abandono de pautas fundamentais de esquerda.
Atacar quem defende pautas de esquerda é um desrespeito que desafia até o mais básico bom senso, mas é algo repetido diariamente ainda hoje por muitos que não desejam fazer uma necessária autocrítica e compreender a situação que foi gerada pelas escolhas reformistas.
É triste, mas todos esses são fatos que a recente História continua a nos alertar a respeito. Exigem, no mínimo, um esforço de reflexão. E parecem apontar para a necessidade de mudança de comportamento e de estratégia na esquerda.
Observemos com cuidado o que está ocorrendo há décadas nos EUA, na Europa e agora também na América Latina: mesmo após anos de governos progressistas-reformistas em diversos países, temos uma sociedade ainda bastante conservadora; pior, houve um claro enfraquecimento gradual das forças históricas de esquerda, que agora encontram-se desmobilizadas após décadas de silenciamento e cooptação vistos como "necessários" para realização das reformas pontuais que não alteraram a desigualdade global no longo prazo (ver Piketty), ou seja, não enfrentaram o sistema que reproduz a miséria humana todos os dias e que continua a sacrificar milhões de pessoas no mundo.
Será que vale a pena continuar apostando nas táticas de "enxugar gelo" desse reformismo lento que dominou a pauta da esquerda, e cujo resultado prático tem sido sempre o enfraquecimento, a desmobilização e a despolitização das forças de esquerda ao final do processo?
Será que um dia iremos discutir abertamente e enfrentar esse enorme problema?
:: domingo, 8 de maio de 2016
Post surreal do dia
"(...) I had no interests. I had no interest in anything. I had no idea how I was going to escape. At least the others had some taste for life. They seemed to understand something that I didn't understand. Maybe I was lacking. It was possible. I often felt inferior. I just wanted to get away from them. But there was no place to go. Suicide? Jesus Christ, just more work. I felt like sleeping for five years but they wouldn't let me. (...)"
(Charles Bukowski, "Ham On Rye")
Política, hipocrisia e cinismo
Amigos terráqueos: há algum curso por aí que ensine como aguentar a hipocrisia e o cinismo do ser humano ao fazer suas defesas ideológicas sem respeitar um mínimo, um mínimo de bom senso?
Juro que queria entender isso. Saber o que passa na cabeça dessas pessoas.
Meu Facebook é um show de horrores: da direita à esquerda, de golpistas a governistas, de cima a baixo — ninguém se salva, todos de alguma maneira presos a suas correntes invisíveis e certezas absolutas, cegos para as óbvias contradições em seus próprios frágeis "argumentos".
Como não sentir vontade de sacudir essa gente e perguntar: "Cara, você não enxerga mesmo a gigantesca contradição nesse absurdo que você acabou de dizer? Vem cá, na boa: é hipocrisia e cinismo? Ou é ignorância, desconhecimento, distorção da realidade? Que passa nessa tua cabeça? É má-fé pura, canalhice, o quê? Fins justificam os meios, é isso? Relativismo seletivo? Você acha que todo mundo ao seu redor é idiota e não vai perceber tua jogada, é isso?"
Quero distância deste planeta.
Plutão, aqui vou eu.
Juro que queria entender isso. Saber o que passa na cabeça dessas pessoas.
Meu Facebook é um show de horrores: da direita à esquerda, de golpistas a governistas, de cima a baixo — ninguém se salva, todos de alguma maneira presos a suas correntes invisíveis e certezas absolutas, cegos para as óbvias contradições em seus próprios frágeis "argumentos".
Como não sentir vontade de sacudir essa gente e perguntar: "Cara, você não enxerga mesmo a gigantesca contradição nesse absurdo que você acabou de dizer? Vem cá, na boa: é hipocrisia e cinismo? Ou é ignorância, desconhecimento, distorção da realidade? Que passa nessa tua cabeça? É má-fé pura, canalhice, o quê? Fins justificam os meios, é isso? Relativismo seletivo? Você acha que todo mundo ao seu redor é idiota e não vai perceber tua jogada, é isso?"
Quero distância deste planeta.
Plutão, aqui vou eu.
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"Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a sua posição social e as suas relações com os outros homens."
(Marx/Engels)
"Tudo o que era sólido e estável se desmancha no ar, tudo o que era sagrado é profanado e os homens são obrigados finalmente a encarar sem ilusões a sua posição social e as suas relações com os outros homens."
(Marx/Engels)
Questões sobre a humanidade
"Vamos admitir: a humanidade, como dizem os cariocas, deu ruim —e o efeito estufa, se mantivermos o otimismo (desta vez um otimismo místico, quase messiânico) é uma espécie de 'recall' planetário. Nós vamos pro saco, várias outras espécies —coitadas— também, mas a natureza como um todo se ajeita, como sempre se ajeitou nas outras extinções em massa. Em milhões de anos restarão apenas, soterrados, fósseis deste mal passo da evolução —algo assim como uns exemplares de 'Anônima Intimidade', do poeta Michel Temer, jogados no fundo de uma caçamba de entulhos. (...)
A humanidade sempre foi um descalabro. Basta olhar em volta para se dar conta de que eu e você, com casa, comida, roupa lavada e Netflix somos a exceção no tempo e no espaço. Hoje as 62 pessoas mais ricas do mundo têm o mesmo dinheiro que os 50% mais pobres (3,5 bilhões de pessoas), 780 milhões não têm acesso à água potável, 1,3 bilhão não têm energia elétrica. No Brasil, 45% das residências não estão conectadas à rede de esgoto —imagina então ao Netflix?
'Ah, mas e o primeiro mundo?' —dirá um esperançoso leitor. 'Se eles conseguiram, nós também podemos conseguir!'. Eles conseguiram o que? A diferença entre os países desenvolvidos e os subdesenvolvidos é que lá eles se organizaram minimamente pra ferrar só quem tá do lado de fora da fronteira, enquanto aqui a gente esculhamba com a gente mesmo. Numa perspectiva global, não faz a menor diferença.
Houve um momento, nalguma tarde por volta de 2010, durante a primavera, talvez, em que vimos todas aquelas TVs de plasma surgindo e refletindo o sol dos trópicos, uma brisa fresca soprou do Atlântico e nos trouxe a ilusão de que o Brasil ia dar certo, de que o mundo talvez fosse um lugar justo e um 'happy end' até seria possível.
Não vai ter 'happy end', mas ao menos o 'end' está próximo —eis a boa notícia. A má notícia é que, antes disso, entre outros revezes, teremos, já nesta semana, provavelmente, o autor de 'Anônima Intimidade' como presidente do Brasil."
(Antonio Prata - grifo meu)
:: sábado, 7 de maio de 2016
:: sexta-feira, 6 de maio de 2016
Marisa Monte e uma leitura das escolas ocupadas
"Me deu uma força transformadora. Foi tão bonito. Só existe amor na micropolítica. Na macropolítica não tem amor, cheguei a essa conclusão. É assim que a gente vai mudar as coisas. Lá em cima não tem nada construtivo. Está ruindo sozinho, a gente não precisa fazer nada. Vamos tirar o lixo das ruas, plantar as árvores. Cada um fazendo sua parte, descobrindo a micropolítica de dentro de cada um."
(Marisa Monte - grifo meu)
Pedagogia e educação: a importância das ocupações
"De cada cem alunos de início do Fundamental apenas onze chegam à universidade. E, mesmo na universidade, o analfabetismo funcional prospera. Mas não é inevitável que os poucos jovens que ingressam no ensino médio a ele cheguem 'mal preparados'. Nem que metade dos que ingressam na universidade não a completem deverá ser considerada uma fatalidade. Para inverter essa trágica situação basta que a pedagogia prevaleça nas escolas onde hoje reina a burocracia. A situação poderá ser alterada se os critérios de natureza administrativa não estiverem submetidos a ocultos interesses político-partidários. Quando políticos, para os quais a pedagogia é ciência oculta, deixarem de dar opinião, ou decidir em algo que não entendem."
(José Pacheco - grifo meu)
Post surreal do dia: "Nuova Civiltà"
Se um dia surgir uma vontade de revolução,
se um dia evoluirmos enquanto sociedade,
se um dia enfrentarmos esse conservadorismo-pragmático,
se um dia superarmos essa farsa de "Ordem e Progresso";
Se esse dia chegar,
deixo aqui minha humilde sugestão
do novo lema para a bandeira (inter)nacional,
resumido na frase do genial Luiz Antonio Simas:
se um dia evoluirmos enquanto sociedade,
se um dia enfrentarmos esse conservadorismo-pragmático,
se um dia superarmos essa farsa de "Ordem e Progresso";
Se esse dia chegar,
deixo aqui minha humilde sugestão
do novo lema para a bandeira (inter)nacional,
resumido na frase do genial Luiz Antonio Simas:
"Paz na Terra e Cana no Copo"
Post filosófico do dia
"Conscientizar o público através de críticas fundamentadas ao sistema é uma forma poderosa de lutar para mudar a situação."Comentário
(Suzana Herculano-Houzel)
A crítica aberta é fundamental para se obter avanços progressistas duradouros.
Fico triste e desmotivado ao ver amigos progressistas insistindo na tática de silenciar (e exigir silêncio dos outros) sobre os problemas e as sérias contradições em suas ações "pragmáticas", louvando apenas o lado positivo (ignorando as questões estruturais, a possibilidade de retrocessos futuros e as ainda absurdas condições de desigualdade no país) em um tom quase fundamentalista, arrogante e desumanizador.
Por que é tão difícil para algumas pessoas aceitar uma crítica de esquerda que argumente sobre escolhas políticas considerando o contexto completo, analisando a realidade sem esconder fatos, apontando os avanços mas alertando para a ainda obscena realidade social, e para os graves retrocessos e riscos que matam possibilidades de progresso futuro?
"Em nome do realismo, se sacrificam alguns princípios fundamentais do movimento socialista, ou como queira chamá-lo, já que teve muitos nomes.
Lembro de ver, quando era jovem, um filme dos irmãos Marx. Groucho estava conduzindo um trem e não havia mais lenha. Então, ele começou a destruir os vagões com um machado, para alimentar a caldeira. Ele conseguiu chegar até a estação, mas apenas com a locomotiva.
Chegou um trem sem trem. Esse é o perigo que corre a esquerda. Não é inevitável, mas é um perigo."
(Eduardo Galeano - grifo meu)
Lembro de ver, quando era jovem, um filme dos irmãos Marx. Groucho estava conduzindo um trem e não havia mais lenha. Então, ele começou a destruir os vagões com um machado, para alimentar a caldeira. Ele conseguiu chegar até a estação, mas apenas com a locomotiva.
Chegou um trem sem trem. Esse é o perigo que corre a esquerda. Não é inevitável, mas é um perigo."
(Eduardo Galeano - grifo meu)
Nessas horas, sempre é preciso retomar as sábias palavras de Mestre Leandro Konder:
"Quando a esquerda evita falar sobre os seus próprios erros e se recusa a discuti-los à luz do dia, ela não está, afinal, se protegendo da direita: está protegendo o conservadorismo que conseguiu se infiltrar no interior dela mesmo."
(Leandro Konder)
:: quinta-feira, 5 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"Gosto muito de ficção de terror e também de ficção científica. Escrevendo meu romance descobri duas coisas: a primeira é que não há nada mais aterrorizante do que ser possuído por si mesmo. A segunda é que há realidades que só a ficção suporta. Ou há realidades que precisam ser inventadas para serem contadas."
(Eliane Brum)
:: quarta-feira, 4 de maio de 2016
Ataque da natureza ou ataque à natureza?
- Na Folha: Avião interrompe decolagem após ser atingido por pássaro em Congonhas
Comentário
Ei, espera lá que não foi bem assim.
O avião não foi "atingido por um pássaro". Foi o AVIÃO que ATINGIU o coitado do pássaro!
Do jeito que noticiam fica parecendo que os pássaros são maníacos assassinos: "Vou lá me suicidar e atingir esse avião desgraçado!".
A manchete tinha que ser "Avião interrompe decolagem após atingir pássaro".
E com as devidas desculpas aos pássaros.
Comentário
Ei, espera lá que não foi bem assim.
O avião não foi "atingido por um pássaro". Foi o AVIÃO que ATINGIU o coitado do pássaro!
Do jeito que noticiam fica parecendo que os pássaros são maníacos assassinos: "Vou lá me suicidar e atingir esse avião desgraçado!".
A manchete tinha que ser "Avião interrompe decolagem após atingir pássaro".
E com as devidas desculpas aos pássaros.
Post filosófico do dia
"Não consigo dormir. Tenho uma mulher atravessada entre minhas pálpebras. Se pudesse, diria a ela que fosse embora; mas tenho uma mulher atravessada em minha garganta."
(Eduardo Galeano)
:: terça-feira, 3 de maio de 2016
Blackbird, eternamente
- Na Folha: "Paul McCartney encontra mulheres que inspiraram a canção 'Blackbird'"
"Paul McCartney se encontrou no sábado (30) com duas mulheres que inspiraram a composição de 'Blackbird', faixa do álbum 'White Album', de 1968, e um dos maiores clássicos dos Beatles.
Elas fizeram parte do processo de integração racial da escola Little Rock's Central, no Estado norte-americano do Arkansas, em 1957. O episódio marcou o ingresso de negros na instituição, que antes só recebia alunos brancos. (...)"
:: segunda-feira, 2 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"(...) Ninguém tem o direito de dizer: 'Revolte-se; a libertação final de todos os homens depende disso.' Não estou de acordo, contudo, com quem diz: 'É inútil para você revoltar-se; sempre vai dar no mesmo.' Não se deve dar ordens àqueles que arriscam suas vidas diante de um poder. Revoltar-se é ou não um direito? Deixemos a questão em aberto. As pessoas se revoltam; isso é um fato. E é assim que a subjetividade (não a dos grandes homens, mas a de qualquer um) é trazida para dentro da história, conferindo-lhe vida. Um condenado põe em perigo sua vida para protestar contra punições injustas; um louco não pode mais suportar ser confinado e humilhado; uma pessoa recusa o regime que a oprime. Isso não faz do primeiro inocente, não cura o segundo e não assegura à terceira o amanhã prometido. Ademais, ninguém é obrigado a ajudá-los. Ninguém é obrigado a declarar que essas vozes confusas cantam melhor do que as outras e falam a verdade. É suficiente que elas existam e que tenham contra si tudo que está determinado a silenciá-las até que haja um sentido em ouvi-las e em prestar atenção ao que querem dizer. Uma questão de ética? Talvez. Uma questão de realidade, sem dúvida. Todos os desencantos da história não alterarão a verdade: é por causa de tais vozes que o tempo dos seres humanos não tem a forma de uma evolução, mas sim, precisamente, de uma 'história'.
Isso é inseparável de outro princípio: o poder que um homem exerce sobre outro é sempre perigoso. Não estou dizendo que o poder é, por natureza, mau; estou dizendo que o poder, com seus mecanismos, é infinito (o que não significa que ele é onipotente, muito pelo contrário). As regras para limitá-lo nunca são suficientemente severas; os princípios universais para desapossá-lo de todas as ocasiões de que apropria nunca serão suficientemente rigorosos. Contra o poder, deve-se, em um esforço incansável e interminável, definir leis invioláveis e direitos irrestritos.
Nos dias que correm, os intelectuais não dispõe de uma boa 'imprensa'. Acredito que posso empregar essa palavra em um sentido bastante preciso. Não é o momento de dizer que alguém não é um intelectual; além disso, eu só provocaria um sorriso. Sou um intelectual. Se pedissem minha concepção do que faço, o estrategista sendo o homem que diz: 'Que diferença faz determinada morte, determinado choro ou determinada revolta, comparados à necessidade geral, e, por outro lado, que diferença faz um princípio geral na situação particular em que vivemos?', bem, eu teria de dizer que é indiferente para mim se o estrategista é um político, um historiador, um revolucionário, um sequaz do xá ou do aiatolá; minha ética teórica é o oposto da deles. É 'anti-estratégica': ser respeitoso quando uma singularidade se revolta, intransigente logo que o poder violar o universal. Uma escolha simples, um trabalho difícil: pois é preciso ao mesmo tempo olhar de perto, um pouco sob a história, o que a fende e a agita, e se manter atento, um pouco aquém da política, àquilo que incondicionalmente a limita. Afinal, este é meu trabalho; não sou o primeiro nem o único a realizá-lo. Mas é o que escolhi."
(Michel Foucault, trecho de "Inutile de se soulever?" ["Inútil revoltar-se?"] - grifo em negrito meu)
Isso é inseparável de outro princípio: o poder que um homem exerce sobre outro é sempre perigoso. Não estou dizendo que o poder é, por natureza, mau; estou dizendo que o poder, com seus mecanismos, é infinito (o que não significa que ele é onipotente, muito pelo contrário). As regras para limitá-lo nunca são suficientemente severas; os princípios universais para desapossá-lo de todas as ocasiões de que apropria nunca serão suficientemente rigorosos. Contra o poder, deve-se, em um esforço incansável e interminável, definir leis invioláveis e direitos irrestritos.
Nos dias que correm, os intelectuais não dispõe de uma boa 'imprensa'. Acredito que posso empregar essa palavra em um sentido bastante preciso. Não é o momento de dizer que alguém não é um intelectual; além disso, eu só provocaria um sorriso. Sou um intelectual. Se pedissem minha concepção do que faço, o estrategista sendo o homem que diz: 'Que diferença faz determinada morte, determinado choro ou determinada revolta, comparados à necessidade geral, e, por outro lado, que diferença faz um princípio geral na situação particular em que vivemos?', bem, eu teria de dizer que é indiferente para mim se o estrategista é um político, um historiador, um revolucionário, um sequaz do xá ou do aiatolá; minha ética teórica é o oposto da deles. É 'anti-estratégica': ser respeitoso quando uma singularidade se revolta, intransigente logo que o poder violar o universal. Uma escolha simples, um trabalho difícil: pois é preciso ao mesmo tempo olhar de perto, um pouco sob a história, o que a fende e a agita, e se manter atento, um pouco aquém da política, àquilo que incondicionalmente a limita. Afinal, este é meu trabalho; não sou o primeiro nem o único a realizá-lo. Mas é o que escolhi."
(Michel Foucault, trecho de "Inutile de se soulever?" ["Inútil revoltar-se?"] - grifo em negrito meu)
:: domingo, 1 de maio de 2016
Post filosófico do dia
"Sometimes I wonder if it will ever end
You get so mad at me when I go out with my friends
Sometimes you're crazy
And you wonder why
I'm such a baby, yeah
The Dolphins make me cry
Well, there's nothing I can do
Only wanna be with you
You can call me your fool
I only wanna be with you
Yeah, I'm tangled up in blue
I only wanna be with you"
(Trecho de "Only Wanna Be With You", Hootie & The Blowfish)
You get so mad at me when I go out with my friends
Sometimes you're crazy
And you wonder why
I'm such a baby, yeah
The Dolphins make me cry
Well, there's nothing I can do
Only wanna be with you
You can call me your fool
I only wanna be with you
Yeah, I'm tangled up in blue
I only wanna be with you"
(Trecho de "Only Wanna Be With You", Hootie & The Blowfish)
Incentivo à ciência
"(...) Se produzimos tanto em tão pouco espaço e com tão poucos recursos, imagine se nossas perguntas não precisassem mais ser limitadas pelo pouco apoio financeiro que recebemos do governo ou pelas leis arcanas de importação. Quantos outros artigos na Science não poderíamos ter, quantos outros conhecimentos não poderíamos exportar?
Fazer mágica é bom, mas cansa. Queria poder ser apenas cientista."
(Suzana Herculano-Houzel, em "Ciência e Centavos", na Revista Piauí de agosto/2015)
:: quarta-feira, 27 de abril de 2016
Sobre o estado punitivista, o racismo estrutural e a farsa do "combate" às drogas
- Na Agência Brasil: Mais de 40 mil presos entraram na população carcerária brasileira em um ano
"O número de pessoas privadas de liberdade no Brasil chegou a 622.202 em dezembro de 2014. Em dezembro de 2013, eram 581.507, o que mostra que a população carcerária aumentou 7% em um ano (40.695 detentos a mais). Cerca de 40% dos presos brasileiros são provisórios, ou seja, ainda não foram julgados em primeira instância. Mais da metade da população carcerária é formada por negros, e o tráfico de drogas foi crime que mais levou os detentos à prisão.
(...) Com o total de 622.202 pessoas privadas de liberdade, o Brasil tem a quarta maior população penitenciária do mundo, atrás dos Estados Unidos (2,2 milhões, ano de referência 2013), China (1,65 milhão, ano de referência 2014) e Rússia (644.237, ano de referência 2015). O Brasil tem déficit de 250.318 vagas, de acordo com o levantamento.
(...) Os dados do levantamento mostram que 61,6% dos presos são negros, 75% têm até o ensino fundamental completo e 55% têm entre 18 e 29 anos. Vinte e oito por cento respondiam ou foram condenados pelo crime de tráfico de drogas, 25% por roubo, 13% por furto e 10% por homicídio.
O ritmo de crescimento da taxa de mulheres presas na população brasileira chama a atenção, de acordo com o relatório. De 2005 a 2014, essa taxa cresceu numa média de 10,7% ao ano. Em termos absolutos, a população feminina aumentou de 12.925 presas em 2005 para 33.793 em 2014. O tráfico de drogas (64%) foi o crime que mais motivou a prisão de mulheres, seguido por roubo (10%) e furto (9%). (...)"
Post filosófico do dia
"Amar é ficar sem chão. O que nem sempre quer dizer voar."
(Ana Suy, @a_suy)
George Orwell e a distinção entre socialismo democrático vs. stalinismo totalitário
"(...) When [George] Orwell is presented in schools, he is correctly presented as an opponent of the USSR, but virtually never mentioned is the fact that he was a socialist. His anti-Soviet stance is supposed to imply tacit support for the Western capitalist-imperialist system; by studying Orwell’s critiques of the Soviet Union, while excluding his critiques of the West, schools only further ingrain the deep-seated sentiment (that is to say propaganda) in US education and culture that the infinitely benevolent, freedom-loving West is always on the side of the celestial Good in the manichean battle between Good and Evil.
Schools prefer propagating binary ideological thinking: 'Orwell was opposed to Soviet ‘totalitarianism,’ therefore he was not a ‘socialist,’ therefore he was a capitalist, therefore he supported the capitalist West,' the unspoken logic habitually goes. Orwell’s opposition to capitalism is almost never presented, nor is his advocacy of (democratic) socialism.
This is a man who fought in the Spanish Revolution and saw the beauties of truly democratic socialism working first-hand — before it was crushed by Spanish fascism, thanks in no small part to the complete inaction (and even indirect, especially corporate, support for fascism) of the rest of the capitalist West.
Owell biographer John Newsinger writes:
(Ben Norton, in "George Orwell, the Socialist" - grifo meu)
Schools prefer propagating binary ideological thinking: 'Orwell was opposed to Soviet ‘totalitarianism,’ therefore he was not a ‘socialist,’ therefore he was a capitalist, therefore he supported the capitalist West,' the unspoken logic habitually goes. Orwell’s opposition to capitalism is almost never presented, nor is his advocacy of (democratic) socialism.
This is a man who fought in the Spanish Revolution and saw the beauties of truly democratic socialism working first-hand — before it was crushed by Spanish fascism, thanks in no small part to the complete inaction (and even indirect, especially corporate, support for fascism) of the rest of the capitalist West.
Owell biographer John Newsinger writes:
'(...) The other crucial dimension to Orwell's socialism was his recognition that the Soviet Union was not socialist. Unlike many on the left, instead of abandoning socialism once he discovered the full horror of Stalinist rule in the Soviet Union, Orwell abandoned the Soviet Union and instead remained a socialist—indeed he became more committed to the socialist cause than ever.'(...)"
(Ben Norton, in "George Orwell, the Socialist" - grifo meu)
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