"As pessoas se recusam a ser perturbadas pelo encrenqueiro que lhes tira o sossego. Sempre fui esse tipo de encrenqueiro, a vida toda, continuo sendo e sempre vou ser o encrenqueiro que meus parentes sempre julgaram que eu era. (...)
Tudo o que escrevo, tudo o que faço é perturbação e irritação. Minha vida inteira, toda a minha existência nada mais é do que perturbação e irritação ininterruptas. Porque chamo a atenção para fatos perturbadores e irritantes.
Existem aqueles que deixam os outros em paz e aqueles que perturbam e irritam, categoria à qual pertenço. Não sou o tipo de pessoa que deixa os outros em paz, nem quero ser uma pessoa assim."
(Thomas Bernhard)
Caia Na Real
Os temas polêmicos, surreais e filosóficos da sociedade de ontem, hoje e amanhã.
:: segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Post surreal do dia
"No fim das contas, o único momento em que seremos 100% produtivos, em que nem uma célula será desperdiçada e nem uma caloria gasta em vão, é quando virarmos adubo para o capim do cemitério. E nessa hora, meus caros, enquanto estivermos devolvendo ao cosmos a energia que nos foi brevemente emprestada, não precisaremos nos preocupar: ninguém vai telefonar para atrapalhar nosso trabalho. Ou melhor, o das minhocas."
(Antonio Prata)
(Antonio Prata)
Novo Capitalismo: de "A Riqueza das Nações" para "A Riqueza das Informações"
"(...) Os chamados ativos intangíveis são hoje a mercadoria mais valorizada na economia digital, o que leva a uma reflexão sobre nosso papel como usuários e fornecedores de informações. Estamos sendo levados à condição de doadores de uma mercadoria preciosa que gera fortunas bilionárias nas mãos de outras pessoas.
A lógica convencional nos diz que, no mínimo, estamos fazendo o papel de idiotas ou otários. Mas não adianta reclamar porque na realidade estamos entrando num outro terreno lógico, onde a produção de conhecimento responsável pela inovação passou a ser o motor da economia capitalista. O conhecimento não se produz mais apenas nos laboratórios, mas nas ruas, florestas, comunidades e redes, só para citar alguns contextos mais comuns.
Todos nós colocamos diariamente na Web uma massa enorme de dados, informações, fatos e conhecimentos, mas recebemos em troca um valor mínimo em serviços fornecidos por empresas como a Facebook e o Google. Em suma, um péssimo negócio pela matemática financeira na qual fomos educados. (...)"
(Carlos Castilho, trecho de "Internet e os novos bilionários com bens alheios")
A lógica convencional nos diz que, no mínimo, estamos fazendo o papel de idiotas ou otários. Mas não adianta reclamar porque na realidade estamos entrando num outro terreno lógico, onde a produção de conhecimento responsável pela inovação passou a ser o motor da economia capitalista. O conhecimento não se produz mais apenas nos laboratórios, mas nas ruas, florestas, comunidades e redes, só para citar alguns contextos mais comuns.
Todos nós colocamos diariamente na Web uma massa enorme de dados, informações, fatos e conhecimentos, mas recebemos em troca um valor mínimo em serviços fornecidos por empresas como a Facebook e o Google. Em suma, um péssimo negócio pela matemática financeira na qual fomos educados. (...)"
(Carlos Castilho, trecho de "Internet e os novos bilionários com bens alheios")
Post filosófico do dia - "Samba do Bom"
"Do Leste, por todo Centro-Oeste
Tudo é belo e tem lindo matiz
E o Rio dos sambas e batucadas
Dos malandros e mulatas
De requebros febris
Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
de colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emolduram em aquarela o meu Brasil"
(Trecho de "Aquarela Brasileira", de Silas de Oliveira, na interpretação do Monobloco)
Tudo é belo e tem lindo matiz
E o Rio dos sambas e batucadas
Dos malandros e mulatas
De requebros febris
Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
de colorido sutil
E este lindo céu azul de anil
Emolduram em aquarela o meu Brasil"
(Trecho de "Aquarela Brasileira", de Silas de Oliveira, na interpretação do Monobloco)
Post surreal do dia - "Diálogos Malucos"
— "Por que você não atualiza o seu Twitter?"
— "Porque eu não quero ser seguido. Quero ser esquecido."
— "Porque eu não quero ser seguido. Quero ser esquecido."
Não acredito no "incorrigível"
Podem me chamar de idealista e ingênuo (admito, sou mesmo): não aceito, de forma alguma, que existam situações ou pessoas "incorrigíveis".
Não aceito.
Parece-me que quem aceita esse diagnóstico é porque não consegue se colocar no lugar do pai ou mãe de uma dessas pessoas supostamente "incorrigíveis". Pois, se o fizessem, jamais aceitariam esse discurso determinista e injusto. Lutariam incansavelmente por uma solução.
Prefiro continuar sendo ingênuo, idealista, utópico. Se eu estiver errado, paciência. Por mais difícil e complexa que seja a situação, prefiro morrer convicto de que tentei achar uma saída justa e humana para TODOS.
Pois a outra opção significaria abrir mão de dar uma chance de viver a uma outra pessoa que precisa de ajuda.
E isso não posso aceitar.
Não aceito.
Parece-me que quem aceita esse diagnóstico é porque não consegue se colocar no lugar do pai ou mãe de uma dessas pessoas supostamente "incorrigíveis". Pois, se o fizessem, jamais aceitariam esse discurso determinista e injusto. Lutariam incansavelmente por uma solução.
Prefiro continuar sendo ingênuo, idealista, utópico. Se eu estiver errado, paciência. Por mais difícil e complexa que seja a situação, prefiro morrer convicto de que tentei achar uma saída justa e humana para TODOS.
Pois a outra opção significaria abrir mão de dar uma chance de viver a uma outra pessoa que precisa de ajuda.
E isso não posso aceitar.
Chega de violência contra as mulheres
Do blog "Escreva, Lola, Escreva", segue trecho final de um assustador depoimento de uma moça ("Mais uma história de horror pra sua coleção"):
É realmente assustadora essa situação. E muita gente não se dá conta da absurda violência contra as mulheres. Inclusive por parte de pessoas conhecidas e que deveriam ser de confiança, como amigos, parentes, namorados e maridos.
"(...) ali aprendi três lições fundamentais:Comentário
- Há homens que tratam mulheres como coisas.
- Alguns desses homens podem se passar por seus amigos por longo tempo.
- Há mulheres que acham isso normal.
Foi uma boa lição de aprender aos 12 anos, pois deve ter me protegido de muitas coisas. Mas é muito errado e deveria ser diferente."
É realmente assustadora essa situação. E muita gente não se dá conta da absurda violência contra as mulheres. Inclusive por parte de pessoas conhecidas e que deveriam ser de confiança, como amigos, parentes, namorados e maridos.
:: sábado, 18 de fevereiro de 2012
Post filosófico do dia (2) - Especial de Carnaval
"Eu quero me embriagar com a alegria."
(Rubem Alves)
(Rubem Alves)
Post filosófico do dia
"A beleza é profundamente triste quando você está sozinho. Você não dá conta dela. Ela pesa muito. Então você tem que passar para alguém."
(Bartolomeu Campos de Queirós)
(Bartolomeu Campos de Queirós)
Saudade e Amizade
"Escreve-me depressa, querida Catarina.
Tu és a minha única amiga.
Na tua amizade me sustento."
(Jane Austen, em "A Abadia de Northanger")
Tu és a minha única amiga.
Na tua amizade me sustento."
(Jane Austen, em "A Abadia de Northanger")
Post surreal do dia - "Diálogos Malucos"
Diálogo de mujeres na padaria, 10 da matina:
— "Ah, os homens estão complicados demais!"
— "Quem mandou casar com homem artista? Agora aguenta!"
— "Ih, a coisa tá séria. Se homem feio já dá trabalho, imagina então homem bonito..."
— "É, as mulheres tão encrecadas mesmo. O que vai ser do futuro da gente?"
— "Ah, os homens estão complicados demais!"
— "Quem mandou casar com homem artista? Agora aguenta!"
— "Ih, a coisa tá séria. Se homem feio já dá trabalho, imagina então homem bonito..."
— "É, as mulheres tão encrecadas mesmo. O que vai ser do futuro da gente?"
:: sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012
Post filosófico do dia
"O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: 'Estou fazendo. Estou pensando.'
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia."
(Clarice Lispector)
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia."
(Clarice Lispector)
Diferenciar necessidades de desejos
"(...) Precisar é algo muito diferente de querer. É um problema tratar essas duas palavras de forma indiferenciada.
Recentemente, vi uma jovem mulher conversar com sua amiga e manifestar que precisava urgentemente de um determinado aparelho celular. Ela tinha um em sua mão, moderno, mas o problema é que não era aquele a que ela fazia menção. Um querer é transformado em um precisar e, certamente, essa mulher iria tratá-lo como tal.
O problema fica muito maior quando transferimos esse estilo de falar e de pensar para as crianças.
Você pode observar: muitas -mas muitas mesmo- crianças já trocam o verbo querer pelo precisar. (...)
Todos precisam saber com clareza que querer não é precisar. E querer, muitas vezes, também não é poder."
(Rosely Sayão, trechos de "Querer é uma coisa, precisar é outra")
Recentemente, vi uma jovem mulher conversar com sua amiga e manifestar que precisava urgentemente de um determinado aparelho celular. Ela tinha um em sua mão, moderno, mas o problema é que não era aquele a que ela fazia menção. Um querer é transformado em um precisar e, certamente, essa mulher iria tratá-lo como tal.
O problema fica muito maior quando transferimos esse estilo de falar e de pensar para as crianças.
Você pode observar: muitas -mas muitas mesmo- crianças já trocam o verbo querer pelo precisar. (...)
Todos precisam saber com clareza que querer não é precisar. E querer, muitas vezes, também não é poder."
(Rosely Sayão, trechos de "Querer é uma coisa, precisar é outra")
:: terça-feira, 14 de fevereiro de 2012
Post filosófico do dia (3)
"Embora o homem tenha sido criado inteiro relativamente ao seu corpo, ele não foi assim criado relativamente à sua 'arte'. Todas as artes lhe foram dadas, mas não numa forma imediatamente reconhecível; ele deve descobri-las através da aprendizagem. … A maneira adequada reside no trabalho e na ação, em fazer e produzir; o homem perverso nada faz, mas fala muito.
Não devemos julgar um homem pelas suas palavras mas antes pelo seu coração. O coração fala através de palavras apenas quando elas são confirmadas por ações."
(Paracelso)
Não devemos julgar um homem pelas suas palavras mas antes pelo seu coração. O coração fala através de palavras apenas quando elas são confirmadas por ações."
(Paracelso)
"Classe Média": mito, realidade e luta de classes
"Mito e mania, abstração e equívoco, lugar-comum e bordão eleitoral, a expressão 'classe média' tornou-se o novo objeto de desejo dos políticos, marqueteiros, empresários, acadêmicos e mediadores.
Numa arrancada tipicamente brasileira, 'classe média' tornou-se uma designação que não designa coisa alguma, identidade não-definida, bolha vocabular. O que não impede que seja cortejada, venerada e idolatrada pelas quase três dezenas de partidos políticos e milhares de empresários ansiosos para conquistar mercados aqui e agora. A qualquer preço. (...)
O endeusamento da classe média, ou classe C (segundo os cânones televisivos), não passa de uma tentativa de aposentar a imagem 'revolucionária' da luta de classes. Ao distribuir à cidadania as vantagens materiais relativas à saúde, instrução, moradia, transporte e segurança, os estados democráticos convertem a isonomia em algo real, concreto, mas em matéria cultural a homogeneização é deletéria. Mais do que isso: perigosa.
O nivelamento social constitui uma das bases do Estado de Bem-Estar, mas a busca da igualdade não pode converter-se num embargo à diversidade espiritual ou existencial. A sociedade humana é necessariamente diversificada. Mantê-la aprisionada a paradigmas religiosos, morais e a cânones intelectuais degradantes liquida a liberdade de escolha e neutraliza todos os avanços. (...)"
(Alberto Dines, trechos de "A nova classe e o Big Brother" - o grifo em negrito é meu)
Numa arrancada tipicamente brasileira, 'classe média' tornou-se uma designação que não designa coisa alguma, identidade não-definida, bolha vocabular. O que não impede que seja cortejada, venerada e idolatrada pelas quase três dezenas de partidos políticos e milhares de empresários ansiosos para conquistar mercados aqui e agora. A qualquer preço. (...)
O endeusamento da classe média, ou classe C (segundo os cânones televisivos), não passa de uma tentativa de aposentar a imagem 'revolucionária' da luta de classes. Ao distribuir à cidadania as vantagens materiais relativas à saúde, instrução, moradia, transporte e segurança, os estados democráticos convertem a isonomia em algo real, concreto, mas em matéria cultural a homogeneização é deletéria. Mais do que isso: perigosa.
O nivelamento social constitui uma das bases do Estado de Bem-Estar, mas a busca da igualdade não pode converter-se num embargo à diversidade espiritual ou existencial. A sociedade humana é necessariamente diversificada. Mantê-la aprisionada a paradigmas religiosos, morais e a cânones intelectuais degradantes liquida a liberdade de escolha e neutraliza todos os avanços. (...)"
(Alberto Dines, trechos de "A nova classe e o Big Brother" - o grifo em negrito é meu)
Post filosófico do dia (2)
"And in her eyes you see nothing,
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years."
(Trecho de "For No One", The Beatles)
No sign of love behind the tears cried for no one,
A love that should have lasted years."
(Trecho de "For No One", The Beatles)
Importância da Diversidade
"(...) O que fez a espécie humana sobreviver não foi apenas a inteligência, mas a nossa capacidade de produzir diversidade. Essa diversidade está sendo negada nos dias de hoje por um sistema que escolhe apenas por razões de lucro e facilidade de sucesso. Os africanos voltaram a ser os 'outros', os que vendem pouco e os que compram ainda menos. Os autores africanos que não escrevem em inglês (e em especial os que escrevem em língua portuguesa) moram na periferia da periferia, lá onde a palavra tem de lutar para não ser silêncio. (...)"
(Mia Couto, trecho de "E se Obama fosse Africano?")
(Mia Couto, trecho de "E se Obama fosse Africano?")
:: segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012
Post filosófico do dia (2)
"Não há nada que eu não faria por aqueles que são meus amigos de verdade. Eu não sei o que é amar pessoas pela metade, não é da minha natureza. Meus laços são sempre muitíssimo fortes."
(Jane Austen, em "Northanger Abbey")
(Jane Austen, em "Northanger Abbey")
O prazer em ignorar as contradições
"A pergunta que fica é: as pessoas não se dão conta de suas contradições? E a resposta é 'muito pouco'.
O psicólogo Drew Westen mostrou que, na política, emoções falam mais alto que a lógica. Ele monitorou os cérebros de militantes partidários enquanto viam seus candidatos favoritos caindo em contradição. Como previsto, eles não tiveram dificuldade para perceber a incongruência do 'inimigo', mas foram bem menos críticos em relação ao 'aliado'.
Segundo Westen, quando confrontados com informações ameaçadoras às nossas convicções políticas, redes de neurônios associadas ao estresse são ativadas. O cérebro percebe o conflito e tenta desligar a emoção negativa. Circuitos encarregados de regular emoções recrutam, então, crenças capazes de eliminar o estresse. A contradição é apenas fracamente percebida.
A surpresa foi constatar que esse processo de relativização não se limita a desligar as emoções negativas. Ele também dispara sensações positivas, acionando circuitos do sistema de recompensa, que coincidem com as áreas ativadas quando viciados em drogas tomam uma dose. Em suma, políticos e simpatizantes sentem prazer ao ignorar suas contradições."
(Hélio Schwartsman)
O psicólogo Drew Westen mostrou que, na política, emoções falam mais alto que a lógica. Ele monitorou os cérebros de militantes partidários enquanto viam seus candidatos favoritos caindo em contradição. Como previsto, eles não tiveram dificuldade para perceber a incongruência do 'inimigo', mas foram bem menos críticos em relação ao 'aliado'.
Segundo Westen, quando confrontados com informações ameaçadoras às nossas convicções políticas, redes de neurônios associadas ao estresse são ativadas. O cérebro percebe o conflito e tenta desligar a emoção negativa. Circuitos encarregados de regular emoções recrutam, então, crenças capazes de eliminar o estresse. A contradição é apenas fracamente percebida.
A surpresa foi constatar que esse processo de relativização não se limita a desligar as emoções negativas. Ele também dispara sensações positivas, acionando circuitos do sistema de recompensa, que coincidem com as áreas ativadas quando viciados em drogas tomam uma dose. Em suma, políticos e simpatizantes sentem prazer ao ignorar suas contradições."
(Hélio Schwartsman)
Post filosófico do dia
"A vida é assim, um campo minado de contradições
e desfechos imperfeitos."
(Eliane Brum)
e desfechos imperfeitos."
(Eliane Brum)
"Responsabilidade, Hipocrisia e Transferência da Culpa"
Navegando pela Internet durante as férias, vi por acaso essa ótima frase: "Não tente transferir para os outros os seus comportamentos pessoais."
Era a resposta para uma moça que acusava outras pessoas de hipocrisia. Ela afirmava categoricamente que "todos traem", mas que ao mesmo tempo fazem discursos morais contrários à traição.
É lógico que isso acontece, mas não da forma generalizada que ela apresentou. A moça não percebia que, na verdade, o ataque violento dela era apenas a prova de que ela enfrenta algum problema moral. Pois, dos outros, ela não tem como saber absolutamente nada além de seus chutes e preconceitos culturais obtidos na sua limitada experiência de vida.
Mas isso é comum e vejo com muita frequência esse tipo de "argumentação" em várias discussões polêmicas: o uso da generalização como forma de tentar sustentar como "correto" um comportamento da própria pessoa e que ela tem a percepção (consciente ou não) de que é algo claramente reprovável, errado.
O objetivo dessa "transferência de culpa" é o seguinte: dado que o ato da própria pessoa não é correto e não pode ser defendido racionalmente por argumentos lógicos, o melhor é apelar para o abstrato e dizer coisas genéricas ou não-comprovadas, do tipo "ah, isso que eu faço, todo mundo faz!".
É o que costumo chamar de falsa moral da maioria. A pessoa gera, assim, um sentimento de autoengano ao transferir para os outros o seu lado mais imoral, e assim se "absolve" da culpa ao generalizar seu comportamento. O correto passa a ser aquilo que é "normal", representado pelo que a maioria faz.
Pensemos sobre isso com cuidado.
O argumento do "todo mundo faz tal coisa" é vazio. Querer saber o que os outros pensam e fazem não ajuda a montar uma lógica argumentativa que se sustente. O certo e o errado aparecem após analisar os fatos, as intenções, os atos, as causas e as consequências, e não usando estatísticas de comportamentos na sociedade.
Mais que isso: ainda que todos fizessem algo, isso não significaria que esse ato é moralmente correto.
Durante séculos a escravidão era aceita; as mulheres eram tratadas como inferiores aos homens (ainda hoje tem gente que pensa assim...); muitos acreditavam que o Sol girava ao redor da Terra; etc etc etc. Tudo falso. Mas eram "fatos" aceitos por muita gente - uma maioria - como "verdades absolutas" e diziam que "isso é certo".
Portanto, tanto nas ciências naturais como nas ciências humanas, ser maioria (ou mesmo unanimidade) não diz nada sobre o valor moral dos atos ou sobre a verdade na natureza.
Generalizar é apenas uma forma de fugir do debate, de não querer se aprofundar no assunto para chegar a uma conclusão sensível, racional, justificada, lógica e não-contraditória.
Quando alguém chega numa mesa de bar com o argumento "todo mundo trai", acusando os outros de hipócritas por defenderem a fidelidade, a única coisa que se pode dizer disso é que o próprio acusador está vivenciando dilemas sobre isso. Como ele não consegue lidar com seus desejos, quer que os outros concordem com sua própria hipocrisia.
Acho lamentável as pessoas não aceitarem que os outros se comportem de forma diferente da que elas acham ser a única "natural".
É aquela coisa: se a pessoa não consegue amar, acha que ninguém consegue; se não consegue ser fiel, acha que ninguém consegue; se não consegue ser altruísta/solidária, acha que ninguém consegue; e por aí vai, atacando os outros para justificar sua própria forma de viver (geralmente bem egoísta e fútil).
Surgem assim argumentos simplistas e absurdos para justificar os atos mais deploráveis do ser humano. Coisas como "ah, homem trai por instinto, não tive culpa", ou "não consegui me controlar, sou um ser humano e tenho desejos", ou ainda "rolou; você faria o mesmo".
Ignoram por completo a razão e o livre-arbítrio - e, claro, sempre em benefício próprio.
Isso sim é hipocrisia e egoísmo.
Vejam: é possível termos pontos de vista bem diferentes sobre ética e moral. Mas, para justificar qualquer ato ou intenção, precisamos de argumentos e debates abertos, informações concretas, e não abstrações e generalizações.
Dizer "todo mundo faz..." é apelar para a não-argumentação. Aí, lamento, não tem muito o que discutir com quem acha que a moralidade está representada em um suposto comportamento da maioria das pessoas.
Limites: entender o que é sempre inaceitável
"Há situações inaceitáveis sob quaisquer circunstâncias. Ataques terroristas a população civil é um dos casos. Destruição moral de populações inteiras é outro."
(Vladimir Safatle, sobre o conflito Israel-Palestina)
(Vladimir Safatle, sobre o conflito Israel-Palestina)
:: domingo, 12 de fevereiro de 2012
Post filosófico do dia (2)
"Há uma bela vista para o lago
mas a vista não se vê a si mesma.
Existe neste mundo
sem cor e sem forma,
sem som, sem cheiro, sem dor.
Sem fundo o fundo do lago
e sem margem as suas margens.
Nem molhada nem seca a sua água."
(Wislawa Szymborska)
mas a vista não se vê a si mesma.
Existe neste mundo
sem cor e sem forma,
sem som, sem cheiro, sem dor.
Sem fundo o fundo do lago
e sem margem as suas margens.
Nem molhada nem seca a sua água."
(Wislawa Szymborska)
Ser diferente não é doença
"Curiosamente, na era da defesa irrestrita das chamadas 'liberdades individuais', assistimos uma intolerância sem precedentes a todo o tipo de desvio ao padrão. Enquanto levantamos as bandeiras de uma nova ordem onde todos têm o direito de ser do jeito que bem quiser, contraditoriamente, tememos qualquer tipo de exceção."
(Rita de Cássia de Araújo Almeida, em "A epidemia de doenças mentais")
(Rita de Cássia de Araújo Almeida, em "A epidemia de doenças mentais")
Post filosófico do dia - "En Español"
"Soy el desesperado, la palabra sin ecos,
el que lo perdió todo, y el que todo lo tuvo."
(Pablo Neruda)
el que lo perdió todo, y el que todo lo tuvo."
(Pablo Neruda)
Liberdade e Filosofia
"Cursos de filosofia formam professores de filosofia, que podem ou não ser filósofos. Assim também, cursos de literatura formam professores de literatura, que podem ou não ser literatos. Finalmente, há filósofos e literatos sem titulação acadêmica. É tão absurdo exigir diplomação específica para alguém ser filósofo quanto seria exigir diplomação específica para alguém ser escritor. A filosofia não é e nem deve tornar-se competência exclusiva de um segmento qualquer, seja ele de natureza estamental, profissional ou ideológico."
(Vinicius de Figueiredo, da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia – ANPOF)
(Vinicius de Figueiredo, da Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia – ANPOF)
:: sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012
Post filosófico do dia (2)
"Existem dois tipos de amigos: um que dirá 'sim' a tudo o que você fizer e outro que, ao ver você rumo ao abismo, segurará firme em seu braço e dirá: 'É hora de mudar de caminho'.
Há de se perguntar quem é o verdadeiro amigo."
(Vladimir Safatle)
Há de se perguntar quem é o verdadeiro amigo."
(Vladimir Safatle)
Política e Ideologia: o vazio do pensamento
"Tudo hoje no Brasil vira bate-boca partidário. Verdades e mentiras converteram-se em frases ocas, que não conseguem ser comprovadas nem discutidas adequadamente. Tudo é ideologia."
(Marco Aurélio Nogueira)
(Marco Aurélio Nogueira)
Post filosófico do dia
"Nós não vivemos em um mundo perfeito; mas a nossa amizade, meus amigos, é perfeita."
(Cris Carter)
(Cris Carter)
A farsa teórica sobre a "necessidade" dos juros altos
"No futuro algum historiador econômico ainda irá se debruçar sobre esses tempos loucos, sobre esses debates sobre taxa de juros neutra, sobre correlações entre Selic e inflação. E dará boas gargalhadas, sobre como foi possível amarrar tanto tempo um país inteiro, candidato a potência, a uma miragem teórica."
(Luis Nassif, em "A pseudo-ciência nas discussões sobre juros")
(Luis Nassif, em "A pseudo-ciência nas discussões sobre juros")
Empatia e Justiça: mais do que "cumprir a lei"
"Se a ideia é fazer justiça e não apenas cumprir leis, nossos juízes talvez devessem visitar as áreas a ser reintegradas e conversar com os moradores antes de assinar seus despachos. Os norte-americanos chamam isso de 'equal consideration of interests' (igual consideração de interesses), um princípio moral que alguns filósofos consideram tão ou mais importante que a própria noção de direitos.
Não se trata, é claro, de um mecanismo para garantir que reintegrações nunca sejam cumpridas, mas de um dispositivo para garantir que todas as partes, independentemente de sua posição econômica ou política, sejam ouvidas e tenham sua posição cuidadosamente considerada pelo magistrado. É o que Kent Greenfield, do Boston School of Law, define como 'sentido jurídico de empatia'. Segundo o autor, julgadores precisam desse tipo de empatia para ter uma chance de evitar as más escolhas e os vieses cognitivos que marcam e deturpam nossas decisões."
(Hélio Schwartsman, trecho de "Divisão de irresponsabilidades")
Não se trata, é claro, de um mecanismo para garantir que reintegrações nunca sejam cumpridas, mas de um dispositivo para garantir que todas as partes, independentemente de sua posição econômica ou política, sejam ouvidas e tenham sua posição cuidadosamente considerada pelo magistrado. É o que Kent Greenfield, do Boston School of Law, define como 'sentido jurídico de empatia'. Segundo o autor, julgadores precisam desse tipo de empatia para ter uma chance de evitar as más escolhas e os vieses cognitivos que marcam e deturpam nossas decisões."
(Hélio Schwartsman, trecho de "Divisão de irresponsabilidades")
:: quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012
Post filosófico do dia (2)
"Quando você retira todas as superfícies, quando você olha dentro da coisa, o que resta é o terror. Foi para curar essa coisa que inventaram a literatura."
(Patrícia Melo)
(Patrícia Melo)
Diferenciar culpados e vítimas nas crises: o perigo dos discursos ideológicos
"Para caracterizar os fenômenos do nosso tempo é preciso, em primeiro lugar, considerar o conceito de crise.
Fala-se de crise da sociedade, de crise da democracia, etc. Assim se consegue culpar as vítimas, pela situação atual.
Ora, a situação que vivemos hoje não é resultado de alguma doença da civilização! É resultado da violência com que os senhores do mundo dirigem hoje a ofensiva contra todos os povos.(...)
A cidadania não é uma prerrogativa que nos adviria de estarmos contados no censo populacional ou de estarmos alistados como eleitores num país. A cidadania é, sobretudo, uma prática que não pode ser delegada. Por tanto, é preciso opor claramente essa prática, esse exercício da ação cidadã, contra os discursos moralizantes que se ouvem por todos os lados, e que dizem que os cidadãos seriam responsáveis pela crise da democracia.
Esses discursos lastimam o desinteresse dos cidadãos pela vida pública e culpam os cidadãos pela deriva individualista dos consumidores. Esses supostos ‘chamamentos’ dos cidadãos ‘à responsabilidade’ só têm, de fato, um efeito: conseguem culpar os cidadãos, para prendê-los mais facilmente no jogo institucional que consiste apenas em selecionar, dentre os membros da classe dirigente, os que aceitem que lhes roubem a potência para agir."
(Jacques Rancière, trechos da entrevista "Hablar de crisis de la sociedad es culpar a sus víctimas" - versão em português neste link)
Fala-se de crise da sociedade, de crise da democracia, etc. Assim se consegue culpar as vítimas, pela situação atual.
Ora, a situação que vivemos hoje não é resultado de alguma doença da civilização! É resultado da violência com que os senhores do mundo dirigem hoje a ofensiva contra todos os povos.(...)
A cidadania não é uma prerrogativa que nos adviria de estarmos contados no censo populacional ou de estarmos alistados como eleitores num país. A cidadania é, sobretudo, uma prática que não pode ser delegada. Por tanto, é preciso opor claramente essa prática, esse exercício da ação cidadã, contra os discursos moralizantes que se ouvem por todos os lados, e que dizem que os cidadãos seriam responsáveis pela crise da democracia.
Esses discursos lastimam o desinteresse dos cidadãos pela vida pública e culpam os cidadãos pela deriva individualista dos consumidores. Esses supostos ‘chamamentos’ dos cidadãos ‘à responsabilidade’ só têm, de fato, um efeito: conseguem culpar os cidadãos, para prendê-los mais facilmente no jogo institucional que consiste apenas em selecionar, dentre os membros da classe dirigente, os que aceitem que lhes roubem a potência para agir."
(Jacques Rancière, trechos da entrevista "Hablar de crisis de la sociedad es culpar a sus víctimas" - versão em português neste link)
Post filosófico do dia
"Os ninguéns"
(Eduardo Galeano, em "O Livro dos Abraços")
As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
(Eduardo Galeano, em "O Livro dos Abraços")
As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.
Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.
Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:
Que não são, embora sejam.
Que não falam idiomas, falam dialetos.
Que não praticam religiões, praticam superstições.
Que não fazem arte, fazem artesanato.
Que não são seres humanos, são recursos humanos.
Que não tem cultura, têm folclore.
Que não têm cara, têm braços.
Que não têm nome, têm número.
Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.
Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.
:: domingo, 5 de fevereiro de 2012
Post filosófico do dia - "Sobre os intelectuais"
"Os intelectuais me dão pena. Eu não quero ser um intelectual. Quando me chamam de 'intelectual distinto', eu digo: 'Não! Eu não sou um intelectual!'. Os intelectuais são os que divorciam a cabeça do corpo. Eu não quero ser uma cabeça que rola por aí! (...)
Cuidado com quem somente raciocina. Cuidado! Temos que raciocinar e sentir. Eu acredito nessa fusão contraditória entre o que se sente e o que se pensa."
(Eduardo Galeano)
Cuidado com quem somente raciocina. Cuidado! Temos que raciocinar e sentir. Eu acredito nessa fusão contraditória entre o que se sente e o que se pensa."
(Eduardo Galeano)
Post surreal do dia
"Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água..."
(Chico Buarque)
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água..."
(Chico Buarque)
Lados Opostos
— "Eu vou embora."
— "Fica."
— "Mas você vai embora também, buscar teu destino. Então é melhor eu ir na direção contrária. Vai ser melhor assim."
Silêncio.
Ambos viram de costas um para o outro.
Cada um apontando para um lado do mundo, um destino incerto em direções perfeitamente opostas.
De um lado, o sol que nasce; de outro, o sol que some.
— "É hora de irmos, então."
Silêncio.
Ela dá o primeiro passo.
Ele também.
Ela dá o segundo passo, o terceiro, o quarto.
Ele também.
Após uma centena de passos, ela resolve finalmente olhar para trás. Ele está ali, de costas, mas exatamente atrás dela, na mesma posição do início da caminhada.
— "Ué, como é que pode você estar aqui? Eu ouvi você caminhar! Devíamos estar distantes uns 100 passos um do outro!"
— "Eu andei para trás, de costas."
Silêncio.
— "Por quê?"
— "Se eu andar de costas, consigo ver o pôr do sol do mesmo jeito."
Silêncio.
Os dois ainda estão de costas um para o outro.
De um lado, o sol que nasce; de outro, o sol que some.
Ele estende a mão para trás.
A mão dela já estava ali, aguardando, ansiosa, compreensiva.
— "Eu não vou embora."
:: sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012
Reality shows, comportamento, ética e limites
"Não sou contra o hedonismo como busca de prazer e mesmo o exibicionismo e o voyeurismo têm seu lugar, na experiência humana. Um voyeurismo discreto entre pessoas que estão de acordo pode ser muito interessante e estimulante. O complicado é isso em rede nacional. Pois passa a ser uma espécie de recomendação.
(...) se abrirmos mão do ideal kantiano de ver o ser humano como fim e não como meio, acabou. O outro vira um mero objeto, um meio para se ganhar, aparecer, tornar-se alguém de sucesso. Eu jamais defenderia a proibição desses programas, mas o que ocorreu acaba sendo uma oportunidade de se discutir seus limites."
(Renato Janine Ribeiro, na entrevista "Contra a ética do varejo")
(...) se abrirmos mão do ideal kantiano de ver o ser humano como fim e não como meio, acabou. O outro vira um mero objeto, um meio para se ganhar, aparecer, tornar-se alguém de sucesso. Eu jamais defenderia a proibição desses programas, mas o que ocorreu acaba sendo uma oportunidade de se discutir seus limites."
(Renato Janine Ribeiro, na entrevista "Contra a ética do varejo")
Post filosófico do dia (3)
Para a Noite
(Hannah Arendt)
Inclina-te, tu consoladora, suavemente sobre meu coração
Dá-me, silenciosa, o alívio das dores.
Cobre com tuas sombras sobretudo a claridade –
Dá-me o cansaço e a fuga frente ao deslumbramento.
Deixa-me teu silêncio, o refrescante desprendimento
Deixa-me no escuro ocultar o mal
Se a claridade me atormenta com novas faces,
Dá-me tu a força para constante ação.
(Hannah Arendt)
Inclina-te, tu consoladora, suavemente sobre meu coração
Dá-me, silenciosa, o alívio das dores.
Cobre com tuas sombras sobretudo a claridade –
Dá-me o cansaço e a fuga frente ao deslumbramento.
Deixa-me teu silêncio, o refrescante desprendimento
Deixa-me no escuro ocultar o mal
Se a claridade me atormenta com novas faces,
Dá-me tu a força para constante ação.
O indivíduo criado pelo neoliberalismo
"(...) Apesar das crises e de suas consequências, o liberalismo segue de pé, produzindo seu lote insensato de lucros e desigualdades, suas políticas de ajuste, sua irrenunciável impunidade. No entanto, ainda que siga vivo, a crise expôs como nunca seus mecanismos perversos e, sobretudo, colocou no centro da cena não já o sistema econômico no qual se articula, mas sim o tipo de indivíduo que o neoliberalismo terminou por criar: hedonista, egoísta, consumista, frívolo, obcecado pelos objetos e pela imagem fashion que emana dele. (...)"
(Eduardo Febbro, trecho de "Contra o estrago do liberalismo, recuperar o Marx filósofo" - entrevista com o filósofo francês Dany-Robert Dufour)
(Eduardo Febbro, trecho de "Contra o estrago do liberalismo, recuperar o Marx filósofo" - entrevista com o filósofo francês Dany-Robert Dufour)
Post filosófico do dia (2)
"Everywhere people stare
Each and every day
I can see them laugh at me
And I hear them say
Hey, you've got to hide your love away"
(Trecho de "You've Got To Hide Your Love Away", The Beatles)
Each and every day
I can see them laugh at me
And I hear them say
Hey, you've got to hide your love away"
(Trecho de "You've Got To Hide Your Love Away", The Beatles)
Margem de Manobra na Política Atual
"Uma vez eu citei a frase do escritor norte-americano Gore Vidal, sobre a situação política nos EUA. Ele afirmou que no seu país havia apenas um partido político com duas alas direitistas. Bem, na Inglaterra, na Itália e na Alemanha ocorre a mesma coisa. Não importa para onde você olhe as opções são limitadas porque a margem para a ação política é muito estreita."
(Istvan Mészáros)
(Istvan Mészáros)
Post filosófico do dia
"Não há qualquer atividade humana da qual se possa excluir toda a intervenção intelectual – o homo faber não pode ser separado do homo sapiens. Também todo o homem, fora do seu emprego, desenvolve alguma atividade intelectual; ele é, por outras palavras, um 'filósofo', um artista, um homem experiente, ele partilha a concepção do mundo, ele tem uma linha consciente de conduta moral, e portanto contribui no sentido de manter ou mudar a concepção do mundo, isto é, no sentido de encorajar novas formas de pensamento."
(Antonio Gramsci, em "Os Intelectuais e a Organização da Cultura")
(Antonio Gramsci, em "Os Intelectuais e a Organização da Cultura")
Lógica, Moral e Verdade
"A lógica é uma ferramenta, apenas. Com ela pode-se dizer se um raciocínio foi bem encadeado e se um sistema é consistente ou não, isto é, se não se contradiz. Mesmo que passem por este teste, ainda não está garantido que a Natureza não se comporte através de outro arranjo. Os gregos antigos fizeram inúmeras especulações acerca de como o universo funcionava. A maioria, palpites errados."Comentário
Esse texto foi extraído de uma crítica ao uso da lógica como instrumento parar "criar" verdades absolutas nas ciências naturais, e a crítica apresentada é bastante precisa.
A lógica apenas indica se um argumento se sustenta minimamente, prezando pela coerência do que está em alegação (hipóteses). Isso não é pouco, sem dúvida – mas também não é suficiente para assumir que tudo que possui lógica/coerência seja verdadeiro/correto.
Mas o que eu queria comentar era outra coisa. É sobre a coerência (o princípio da não-contradição) nas ciências humanas, em especial nas discussões sobre ética e moral.
Assim como nas ciências naturais, no campo da moralidade e das ações humanas podemos fazer alguns "testes" para verificar o grau de consistência de um modo de viver, de um comportamento, de uma ideologia.
Acredito que o primeiro teste – e que derruba a grande maioria das pessoas – é o da coerência e lógica. Ou seja: muito antes de perguntarmos sobre a moral - se determinado ato ou modo de viver é "certo" ou "errado" –, devemos primeiro ver se não há alguma contradição explícita no argumento, uma hipocrisia, o uso de "dois pesos e duas medidas" sem explicação. Sem garantir essa consistência mínima no argumento, nem vale a pena seguir em frente.
Sócrates era especialista nesse tipo de debate. Ele astutamente fazia perguntas a seu interlocutor até que, em um determinado momento, e apenas por meio de um raciocínio lógico, Sócrates fazia o próprio interlocutor entrar em contradição nas suas respostas, demonstrando a incoerência entre suas afirmações.
Ou seja: Sócrates não queria necessariamente mostrar que o interlocutor estava "certo" ou "errado". Primeiro, mostrava se ele era coerente ou não em seu raciocínio. E a grande maioria não passava nesse primeiro teste.
Pior: ao perceberem que Sócrates estava correto ao apontar as inconsistências de um raciocínio, vários de seus interlocutores tornaram-se grandes inimigos do filósofo. Nem todos aceitaram bem as críticas, mesmo construtivas.
Bom, para quem não conhece a história toda, resumo dizendo que Sócrates morreu condenado por seus pares à morte. E o motivo foi ele defender a verdade, a coerência, a justiça. Ali, dizem alguns, nascia verdadeiramente a Filosofia.
Hoje em dia a situação não é muito diferente, infelizmente. Poucos aceitam críticas e reconhecem as falhas de coerência em seus argumentos ou modos de viver. Preferem partir para uma justificativa tão subjetiva e abstrata que não poderia nunca ser questionada. Bom, aí, não há mesmo o que discutir...
Quem me conhece sabe o quanto gosto de debater política, ética e moral. E, quando começo a discutir isso em mesa de bar, a coisa vai longe.

Talvez o que mais me assuste é que a grande maioria das pessoas entra em contradição nos debates, ou seja, seus argumentos não são lógicos. Pior: a hipocrisia das ações aparece mais cedo ou mais tarde, especialmente quando damos exemplos práticos onde a pessoa precisa transformar sua ideologia em ato.
Então, muitas vezes, o debate acaba ali, até com algum constrangimento: assim como acontecia quando Sócrates demonstrava a incoerência de seus interlocutores, muitas pessoas hoje levantam suas "barreiras" (mecanismos de defesa) ao perceberem que entraram em contradição.
Admitir estar errado, ou mesmo admitir uma incerteza, é, para muitos, sinal de fraqueza. Besteira isso, mas infelizmente é um fato. Nem todos convivem bem com a máxima de Sócrates: "tudo que sei é que nada sei", ou seja, devemos estar dispostos a questionar até aquilo em que mais acreditamos - principalmente no caso de uma contradição aparecer bem na nossa frente.
Poucos assumem a mera possibilidade de estarem errados. Insistem na incoerência ou simplesmente desistem de argumentar, alegando elementos subjetivos que não podem ser contestados por argumentação.
O resultado dessa subjetivação da razão (ou até eliminação da razão) é a abertura de espaços para justificar (às vezes com total hipocrisia, sem argumentação alguma) as maiores injustiças, alegando apenas explicações genéricas tais como "situações históricas", "natureza humana", "acaso" ou ainda "ah, não tinha outro jeito".
Uma pena.
:: terça-feira, 31 de janeiro de 2012
Post filosófico do dia (4)
"A função da arte - 1"
(por Eduardo Galeano, em "O Livro dos Abraços")
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
— Me ajuda a olhar!
(por Eduardo Galeano, em "O Livro dos Abraços")
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos.
E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:
— Me ajuda a olhar!
Post filosófico do dia (3)
"O que me move é a vocação divina da palavra, que não apenas nomeia mas que inventa e produz encantamento."
(Mia Couto)
(Mia Couto)
Estudos e Pesquisas de Campo
"Quando um viajante pediu à criada de Wordsworth para mostrar-lhe os estudos do patrão, ela retrucou: 'Eis aqui sua biblioteca, mas os estudos, ele os faz na rua.' "
(Henry Thoreau)
(Henry Thoreau)
Respeito à Solidão
"Quando a gente está num relacionamento, é comum ter vontade de exigir a atenção do outro o tempo inteiro. 'Me escuta, olha para mim, fala comigo, pega a minha mão, não me ignora.' Pode ser bonitinho, mas não é razoável. É importante poder ficar longe, mesmo estando na presença um do outro – estar quieto, lendo, trabalhando ou apenas imerso em si mesmo. É igualmente importante poder fazer coisas sozinho, entrar no cinema ou caminhar pela rua sem estar de mãos dadas.
A cumplicidade, embora essencial, não nos transforma em uma única pessoa, e isso é bom. Mesmo apaixonados, ainda precisamos boiar sozinhos no mar interior e você não deveria se assustar com isso. Entenda como uma oportunidade de estar na sua, de forma segura: eu estou aqui, você conta comigo permanentemente, minha mão está ao alcance da sua. Mas, às vezes, vou exigir distância e solidão – e é importante que você compreenda isso."
(Ivan Martins)
A cumplicidade, embora essencial, não nos transforma em uma única pessoa, e isso é bom. Mesmo apaixonados, ainda precisamos boiar sozinhos no mar interior e você não deveria se assustar com isso. Entenda como uma oportunidade de estar na sua, de forma segura: eu estou aqui, você conta comigo permanentemente, minha mão está ao alcance da sua. Mas, às vezes, vou exigir distância e solidão – e é importante que você compreenda isso."
(Ivan Martins)
Post filosófico do dia (2)
"You'll never know if you never try,
To forgive your past and simply be mine
I dare you to let me be your, your one and only,
I promise I'm worth it,
To hold in your arms,
So come on and give me a chance,
To prove I am the one who can walk that mile,
Until the end starts,
I know it ain't easy giving up your heart,
I know it ain't easy giving up your heart,
Nobody's perfect,
Trust me I've learned it..."
(Trecho de "One And Only", Adele)
To forgive your past and simply be mine
I dare you to let me be your, your one and only,
I promise I'm worth it,
To hold in your arms,
So come on and give me a chance,
To prove I am the one who can walk that mile,
Until the end starts,
I know it ain't easy giving up your heart,
I know it ain't easy giving up your heart,
Nobody's perfect,
Trust me I've learned it..."
(Trecho de "One And Only", Adele)
Política, partidos políticos e futuro
"Os partidos políticos que conhecemos hoje são aparelhos destinados exclusivamente a tomar o poder. Qualquer renascimento da política exige que haja coletivos que escapem à lógica de tomar o poder, que definam seus objetivos e seus meios de ação independentes das agendas dos Estados.
Ser independente das agendas dos Estados não significa desinteressar-se delas, como se as agendas dos Estados não existissem. Ser independente significa construir uma dinâmica própria, espaços de discussão e outras formas de circulação da informação, motivos e formas de ação dirigidos, em primeiro lugar, ao desenvolvimento de um poder autônomo de pensar e de atuar."
(Jacques Rancière)
Ser independente das agendas dos Estados não significa desinteressar-se delas, como se as agendas dos Estados não existissem. Ser independente significa construir uma dinâmica própria, espaços de discussão e outras formas de circulação da informação, motivos e formas de ação dirigidos, em primeiro lugar, ao desenvolvimento de um poder autônomo de pensar e de atuar."
(Jacques Rancière)
Dictadura de la novedad
"Hoy en día toda esta sociedad a través de la tele, de los anuncios, te impone lo novedoso. Si tienes algo anticuado de más de dos años ya es viejo. 'Hay que tener lo nuevo' y eso es insostenible. Acaba siendo una dictadura porque a los pibes les machacan la cabeza diciéndole que si no tenés lo último, lo más novedoso no eres nadie. Es totalmente falso. Y eso no tiene futuro. Ya no hay recursos para tanta novedad y la dictadura que nos impone la sociedad a nivel de la novedad es una imposición dictatorial. (...)
¡Qué importa que sea nuevo! Lo antiguo también es valioso. Si ya no sirve ya no sirve pero si sirve está ahí. ¿Para qué cambiarlo? La novedad puede ser super positiva pero muchas veces tiene que ver con la vanidad, muchas veces te empuja esa vanidad de lo novedoso.
A veces tengo gente que me dice: 'tu estás haciendo siempre lo mismo', si seguro que si, capaz que tiene razón, no lo he avalado yo personalmente pero lo que estoy haciendo nunca lo he valorado por el lado si es nuevo o antiguo. Es que no me importa. Me sirve en un bar, me sirve en una cancha grande porque genera lo que necesitamos que es energía positiva generalizada.
Que sea nuevo o antiguo ahí no está el problema. Ahí está también el peligro de las modas. La moda es algo super mercantil. Yo personalmente en mi vida y en mi manera de ser no estoy en eso. Estoy más en la fidelidad que en la moda. (...)
Yo siempre pienso que lo que importa es el futuro pero lo más importante de todo es el momento presente porque es ahí donde se cocina el futuro. Entonces lo que sirve es lo que sirve en el momento presente. Lo importante no es lo nuevo sino lo útil."
(Manu Chao, na entrevista 'Manu Chao La Ventura: Fin de Gira con La Colifata a sala llena')
¡Qué importa que sea nuevo! Lo antiguo también es valioso. Si ya no sirve ya no sirve pero si sirve está ahí. ¿Para qué cambiarlo? La novedad puede ser super positiva pero muchas veces tiene que ver con la vanidad, muchas veces te empuja esa vanidad de lo novedoso.
A veces tengo gente que me dice: 'tu estás haciendo siempre lo mismo', si seguro que si, capaz que tiene razón, no lo he avalado yo personalmente pero lo que estoy haciendo nunca lo he valorado por el lado si es nuevo o antiguo. Es que no me importa. Me sirve en un bar, me sirve en una cancha grande porque genera lo que necesitamos que es energía positiva generalizada.
Que sea nuevo o antiguo ahí no está el problema. Ahí está también el peligro de las modas. La moda es algo super mercantil. Yo personalmente en mi vida y en mi manera de ser no estoy en eso. Estoy más en la fidelidad que en la moda. (...)
Yo siempre pienso que lo que importa es el futuro pero lo más importante de todo es el momento presente porque es ahí donde se cocina el futuro. Entonces lo que sirve es lo que sirve en el momento presente. Lo importante no es lo nuevo sino lo útil."
(Manu Chao, na entrevista 'Manu Chao La Ventura: Fin de Gira con La Colifata a sala llena')
Post filosófico do dia
"I am beginning to understand the reality of what it takes to uphold that commitment. To have the courage to unlock your box of fears and let Pandora have her way. Abandon your ego, and invite the muddy, unclear, soft mushy parts of your soul just hang out there. It is so messy, unpredictable. It feels so unsafe, so unknown, yet so, so passionately alive."
(Allison Mack, trecho de "The Cynical Romantic")
(Allison Mack, trecho de "The Cynical Romantic")
Cuidado com a Falsa Generosidade
"I used to think all liberals and lefties were the same: good hearts, good politics. It took a real wake-up call in the capital of liberalism, San Francisco, for me to realize that there were various forms of 'liberals', and the one I had never encountered back in Flint was the Wealthy Liberal Who Loved Humanity But Hated People. He's the liberal whose conscience is eased by the generosity of his checkbook — just as long as you, the recipient of his largesse, look the other way and not consider how he came to have that money in the first place."
(Michael Moore, trecho do livro "Here Comes Trouble" - o grifo em negrito é meu)
(Michael Moore, trecho do livro "Here Comes Trouble" - o grifo em negrito é meu)
:: sexta-feira, 27 de janeiro de 2012
Post filosófico do dia (3)
"O objetivo da educação não é ensinar coisas. O objetivo da educação é ensinar a pensar."
(Rubem Alves)
(Rubem Alves)
Post surreal do dia (2) - "Diálogos Malucos"
— "Ele se faz de besta, pra disfarçar a verdadeira intenção."
— "Não, não, a intenção tá clara: ele é só besta mesmo."
— "Não, não, a intenção tá clara: ele é só besta mesmo."
Post filosófico do dia (2)
"No céu estrelado
Eu me perco
Com os pés na terra
Vagando entre os astros
Nada me move
Nem me faz parar
A não ser
A vontade de te encontrar
E o motivo eu já nem sei
Nem que seja só para estar
Ao teu lado só pra ler
No teu rosto
Uma mensagem de amor"
(Trecho de "Mensagem de Amor", Os Paralamas do Sucesso)
Eu me perco
Com os pés na terra
Vagando entre os astros
Nada me move
Nem me faz parar
A não ser
A vontade de te encontrar
E o motivo eu já nem sei
Nem que seja só para estar
Ao teu lado só pra ler
No teu rosto
Uma mensagem de amor"
(Trecho de "Mensagem de Amor", Os Paralamas do Sucesso)
Post surreal do dia - "Contos Malucos"
"Sometimes you just have to pee in the sink."
(Charles Bukowski)
(Charles Bukowski)
"Insetos e Gentilezas"
Eu havia chegado em casa bêbado, como de costume. Então aquele mosquito, pernilongo ou sei lá o quê, aproximou-se e disse:
— "Posso?"
— "Pode o quê?", perguntei.
— "Amigo, tô com fome. Preciso de sangue. Posso te picar, por favor?"
É incrível como a gentileza faz diferença. Que bicho educado, pensei.
— "Ah, tá. Claro que pode, fique à vontade. Mas tenho que avisar que..."
Antes que eu pudesse terminar a frase, o inseto cravou suas microscópicas mandíbulas sugadoras em meu braço. Sugou o que ele achava ser sangue.
Alguns segundos depois ele percebeu que havia algo errado. Percebeu que não, o gosto não era de sangue. Tentou voar para longe de mim. Rapidamente eu deixei de ser provedor de comida e me tornei uma ameaça nuclear para o pequeno inseto. Mas seu voo era todo errático, ele ficou completamente tonto, não conseguia ir em uma direção reta.
Bateu contra a parede algumas vezes. Parecia que queria vomitar, se é que insetos vomitam. Mas o líquido já havia entrado no seu corpo, não tinha mais jeito ou volta. Gritei para ele:
— "Tentei avisar, amigo. Você certamente não me conhece. Se tiver alguma gota de sangue na minha corrente alcoólica, é puro milagre... Você tem sorte de estar vivo!"
O inseto se debatia contra a parede e tentava balbuciar palavras em minha direção. Eram parcialmente incompreensíveis, mas ouvi algo como "MERD...!", "SACANAG...!", "FILHO DA P...!", e outras coisas assim. A gentileza e a educação duraram pouco, pelo jeito.
Num último esforço, o inseto ganhou altura e fugiu pela janela em meio à chuva torrencial. Não sei se ele sobreviveu.
Raios, não sei nem se eu sobrevivi.
Post filosófico do dia
"When you find that one person who connects you to the world, you become someone different, someone... better. When that person is taken from you... what do you become then?"
(Frase inicial do primeiro episódio do seriado "Person of Interest")
(Frase inicial do primeiro episódio do seriado "Person of Interest")
Esforços Insuficientes
"Sem uma política corajosa de corte na ração rentista o Brasil cruzará décadas apagando incêndios no combate à pobreza e a miséria que enredam a vida de 27% da população e às deficiências de infraestrutura social e logística. É melhor que a regressividade demotucana. Mas insuficiente para embalar a travessia histórica da injustiça e do subdesenvolvido para uma Nação rica, compartilhada por todos."
(Saul Leblon)
(Saul Leblon)
:: quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Post filosófico do dia (2)
"Minha vida sempre foi compor. Para deixar de fazê-lo, só se trocasse a composição pela felicidade."
(Tom Jobim)
(Tom Jobim)
Impulsos, controle, sentimentos e livre-arbítrio
"(...) Concordo que quem nos desperta paixões, ira ou prazer não é algo que possamos influenciar: apenas nos cabe reconhecer. Mas é aqui justamente que podemos mudar a história: a partir do momento em que tomamos ciência de nossos sentimentos.
Se nosso córtex pré-frontal não consegue mandar no hipotálamo, ele ao menos nos permite reconhecer nossos impulsos... e mudar de ideia. Agir diferente. Conter um impulso. Responder diferente. Não escolhemos por quem nos apaixonamos - mas temos, sim, o poder de decidir o que fazer a respeito..."
(Suzana Herculano-Houzel, em "Paixão e livre-arbítrio", na Folha de S.Paulo de 24/1/2012)
Se nosso córtex pré-frontal não consegue mandar no hipotálamo, ele ao menos nos permite reconhecer nossos impulsos... e mudar de ideia. Agir diferente. Conter um impulso. Responder diferente. Não escolhemos por quem nos apaixonamos - mas temos, sim, o poder de decidir o que fazer a respeito..."
(Suzana Herculano-Houzel, em "Paixão e livre-arbítrio", na Folha de S.Paulo de 24/1/2012)
Post filosófico do dia
Homenagem a uma amiga que faz aniversário no mesmo dia que o eterno Tom Jobim.
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"Luciana"
(Composição: Antonio Carlos Jobim)
Olha que amor, Luciana
É como a flor, Luciana
Olhos que vivem sorrindo
Riso tão lindo
Canção de paz
Olha que o amor, Luciana
É como a flor que não dura demais
Embriagador
Mas também traz muita dor, Luciana.
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"Luciana"
(Composição: Antonio Carlos Jobim)
Olha que amor, Luciana
É como a flor, Luciana
Olhos que vivem sorrindo
Riso tão lindo
Canção de paz
Olha que o amor, Luciana
É como a flor que não dura demais
Embriagador
Mas também traz muita dor, Luciana.
Retrocesso: o reacionarismo como "resposta" a crises
"Para qualquer compreensão da realidade, é preciso ter uma perspectiva histórica. O que são esses partidos da social-democracia hoje na Europa? São herdeiros de anos de reformas que os trouxeram cada vez mais para a direita. O que aconteceu com as legendas mais radicais, como o Partido Comunista Italiano, de Gramsci? Suas propostas fundamentais foram completamente diluídas e o PCI se fragmentou. Os verdadeiros partidos de esquerda hoje na Europa são muito pequenos, sem representação."
(Istvan Mészáros)
(Istvan Mészáros)
Post surreal do dia - "Mais Burocracia"
"A burocracia - 3"
(Eduardo Galeano, em "O Livro dos Abraços")
Sixto Martínez fez o serviço militar num quartel de Sevilha. No meio do pátio desse quartel havia um banquinho. Junto ao banquinho, um soldado montava guarda. Ninguém sabia porque se montava guarda para o banquinho. A guarda era feita por que sim, noite e dia, todas as noites, todos os dias, e de geração em geração os oficiais transmitiam a ordem e os soldados obedeciam. Ninguém nunca questionou, ninguém nunca perguntou. Assim era feito, e sempre tinha sido feito.
E assim continuou sendo feito até que alguém, não sei qual general ou coronel, quis conhecer a ordem original. Foi preciso revirar os arquivos a fundo. E depois de muito cavoucar, soube-se.
Fazia trinta e um anos, dois meses e quatro dias, que um oficial tinha mandado montar guarda junto ao banquinho, que fora recém-pintado, para que ninguém sentasse na tinta fresca.
(Eduardo Galeano, em "O Livro dos Abraços")
Sixto Martínez fez o serviço militar num quartel de Sevilha. No meio do pátio desse quartel havia um banquinho. Junto ao banquinho, um soldado montava guarda. Ninguém sabia porque se montava guarda para o banquinho. A guarda era feita por que sim, noite e dia, todas as noites, todos os dias, e de geração em geração os oficiais transmitiam a ordem e os soldados obedeciam. Ninguém nunca questionou, ninguém nunca perguntou. Assim era feito, e sempre tinha sido feito.E assim continuou sendo feito até que alguém, não sei qual general ou coronel, quis conhecer a ordem original. Foi preciso revirar os arquivos a fundo. E depois de muito cavoucar, soube-se.
Fazia trinta e um anos, dois meses e quatro dias, que um oficial tinha mandado montar guarda junto ao banquinho, que fora recém-pintado, para que ninguém sentasse na tinta fresca.
Conservadorismo vs. Direitos Humanos
"Um dos problemas que inviabilizam o debate com os setores conservadores é certamente o reduzido nível intelectual do conservadorismo brasileiro. Ignoram e distorcem os fatos; insistem em repetir incansavelmente argumentos ilógicos há muito refutados; não respondem perguntas; não tentam, porque não conseguem, contestar os argumentos contrários – quando não usam e abusam do cinismo."Comentário
(Fabiano Camilo, trecho de "O diálogo impossível com o conservadorismo antidemocrático")
Destaquei esse trecho do artigo do Camilo pois o conservadorismo é realmente uma enorme barreira que precisa ser enfrentada para construirmos uma sociedade mais justa, especialmente na questão de Direitos Humanos.
Acho que o problema é até mais grave do que apenas um "reduzido nível intelectual do conservadorismo brasileiro". Nem todos os conservadores são incapazes de usar o intelecto: muitos deles simplesmente utilizam-no de forma a se beneficiarem com isso.
Há no fundo uma questão de valores, de moral, e não apenas de falta de inteligência. E há também a formação cultural que as pessoas recebem ao longo da vida, moldando seus comportamentos.
Mas o Camilo tem razão: podemos - e até devemos - dizer que defender o conservadorismo não é uma forma verdadeira de inteligência. A ausência de bondade e justiça nos atos não pode ser considerada como algo inteligente, como bem apontou o cineasta Fernando Trueba em entrevista recente. É, no máximo, uma forma limitada e inferior de inteligência.
Ou seja: é difícil aceitar que uma pessoa verdadeiramente inteligente seja contrária a valores como solidariedade, justiça, bondade, respeito, liberdade sexual etc.
A pergunta que precisamos fazer, porém, é mais complexa: será o conservadorismo uma questão apenas de ignorância, de reprodução "burra" de certos valores culturais reacionários? Temos no conservadorismo apenas "idiotas bem-intencionados", ou o que temos são cínicos mal-intencionados, defendendo estrategicamente suas posições privilegiadas na sociedade?
Acho que a resposta é: ambos os casos existem.
Por um lado temos uma elite privilegiada e reacionária que defende ao máximo um modo de viver que deixe tudo como está - um status quo eternizado, que lhes garante enormes vantagens e eles sabem muito bem disso. São cínicos em suas falas, fingindo sentir solidariedade ou criando falsos argumentos contra qualquer valor progressista. Esses são os conservadores mal-intencionados, pois sabem perfeitamente o que fazem, apesar de suas dissimulações e mentiras.
Mas há também um grande grupo de pessoas conservadoras que não pensam com maldade. São, talvez, "apenas" ignorantes: idiotas bem-intencionados, que defendem exatamente as mesmas coisas que a elite dominante reacionária, mas que genuinamente não percebem o mal por trás de seus atos. Acreditam que estão realmente "ajudando" a sociedade com essa postura radical-conservadora.
Se isso for verdade, ao menos em tese há uma possibilidade de "salvar" esses idiotas bem-intencionados por meio do conhecimento e da sabedoria, mostrando-lhes o lado real das coisas, lutando contra os preconceitos, abrindo novos espaços para debate. Teríamos que confiar na força do intelecto humano: na esperança de que um ser humano inteligente - e dotado de sabedoria - eventualmente enxergará os problemas, as falsidades e as absurdas injustiças propagadas pelo pensamento conservador.
É um caminho que acredito valer a pena tentarmos trilhar. Cabe a cada um de nós ajudar a fazer debates justos e abertos, sem preconceitos, para mostrar o outro lado da história.
Só assim essa esperança pode um dia resultar em um mundo verdadeiramente mais justo em termos de Direitos Humanos.
:: sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Post filosófico do dia (3) - "Comunicação e Solidão"
"Estamos todos amarrados aos códigos coletivos com que comunicamos na vida quotidiana. Mas quem escreve quer dizer coisas que estão para além da vida quotidiana. Nunca o nosso mundo teve ao seu dispor tanta comunicação. E nunca foi tão dramática a nossa solidão. Nunca houve tanta estrada. E nunca nos visitamos tão pouco."
(Mia Couto)
(Mia Couto)
Post surreal do dia (2) - "Burocracia"
"Nos tempos da ditadura militar, em meados de 1973, um preso político uruguaio, Juan José Noueched, sofreu uma sanção de cinco dias: cinco dias sem visita nem recreio, cinco dias sem nada, por violação do regulamento. Do ponto de vista do capitão que aplicou a sanção, o regulamento não deixava margem de dúvida. O regulamento estabelecia claramente que os presos deviam caminhar em fila e com as mãos nas costas. Noueched tinha sido castigado por estar com apenas uma das mãos nas costas.
Noueched era maneta."
(Eduardo Galeano, trecho de "A burocracia/1", em "O Livro dos Abraços")
Noueched era maneta."
(Eduardo Galeano, trecho de "A burocracia/1", em "O Livro dos Abraços")
Post filosófico do dia (2)
"It's enough for me,
Living in my dreams,
I just can't be bothered,
Why should I be bothered?
My time is up
I need you to know that I need you,
Don't you walk away,
I'm feeling so high
From my arms, from my lips, to my eyes"
(Trecho de "So High", Eliza Doolittle)
Living in my dreams,
I just can't be bothered,
Why should I be bothered?
My time is up
I need you to know that I need you,
Don't you walk away,
I'm feeling so high
From my arms, from my lips, to my eyes"
(Trecho de "So High", Eliza Doolittle)
Post surreal do dia
"Entre tantas coisas que valem a pena ver na vida, uma
delas é o pôr do sol nas praias de Ipanema e Leblon.
Por outro lado, há muitas outras coisas, em todo o
mundo, que não precisariam existir. Costumam ser as
mais faladas e mais vistas. A idiotice humana é
epidêmica e universal."
(Mestre Tostão)
delas é o pôr do sol nas praias de Ipanema e Leblon.
Por outro lado, há muitas outras coisas, em todo o
mundo, que não precisariam existir. Costumam ser as
mais faladas e mais vistas. A idiotice humana é
epidêmica e universal."
(Mestre Tostão)
"Memórias traiçoeiras de uma viagem sem destino"
A melhor coisa de viajar é que você sempre aprende alguma coisa. Na pior (ou melhor) das hipóteses, aprende a dar valor ao que deixou para trás.
O melhor e mais prazeroso destino, aquele que mais ensina o inesperado, às vezes está mais perto do que imaginamos.
Há uma estranha intuição dentro de mim, misturada às memórias de cada surreal viagem que fiz, alertando-me com certa ironia traiçoeira:
"Sem nunca sair de mim, aprendi o essencial. E você? Já aprendeu aquilo que verdadeiramente lhe escapa?"Hum. Touché.
Próxima parada: Plutão.
Post filosófico do dia
"Incrível como a vida se encaixa... Precisar perder algo que era realmente incrível pra lembrar pelo que realmente se deve lamentar na vida."
(Gisele Rodrigues, @giselefor)
(Gisele Rodrigues, @giselefor)
Educar para quebrar regras injustas
"O impacto da lógica incorrigível do capital sobre a educação tem sido grande ao longo do desenvolvimento do sistema. Apenas as modalidades de imposição dos imperativos estruturais do capital no domínio educacional mudaram desde os primeiros dias sangrentos da 'acumulação primitiva' até ao presente, em sintonia com as circunstâncias históricas alteradas (...).
É por isso que hoje o significado da mudança educacional radical não pode ser senão o rasgar do colete-de-forças da lógica incorrigível do sistema: através do planeamento e da prossecução consistente da estratégia de quebrar a regra do capital com todos os meios disponíveis, assim como com todos aqueles que ainda têm de ser inventados neste espírito."
(István Mészáros, trecho de "Educação para Além do Capital")
É por isso que hoje o significado da mudança educacional radical não pode ser senão o rasgar do colete-de-forças da lógica incorrigível do sistema: através do planeamento e da prossecução consistente da estratégia de quebrar a regra do capital com todos os meios disponíveis, assim como com todos aqueles que ainda têm de ser inventados neste espírito."
(István Mészáros, trecho de "Educação para Além do Capital")
:: quinta-feira, 19 de janeiro de 2012
Elis Regina, uma homenagem
- No Blog Tijolaço.com: "Minha arma é o que a memória guarda" (Homenagem a Elis Regina)
"(...)
'Me tomam por quem? Um imbecil? Sou algo que se molda do jeitinho que se quer? Isso é o que todos queriam, na realidade. Mas não vão conseguir, porque quando descobrirem que estou verde já estarei amarela. Eu sou do contra. Sou a Elis Regina de Carvalho Costa que poucas pessoas vão morrer conhecendo'.A Elis Regina de Carvalho Costa trouxe ao grande público gente como Milton Nascimento, João Bosco, Aldir Blanc,. Passeou por valsas, como Fascinação, por sambas, bossa nova, rock, por canções latinoamericas, por todos os lugares musicais onde pudesse despejar a torrente caudalosa ou murmurante que lhe brotava à boca.
Desculpem a possível pieguice, mas o 30º ano da morte física de Elis Regina desculpa qualquer sentimento em minha geração.
E, depois, quem não tem coragem de apaixonar-se, de viver e proclamar estas paixões diante de todos, não sabe o que está perdendo.
Porque perdeu a ciência, tão doce e vital ciência, de que a nossa arma é o que a memória guarda.
(Brizola Neto)"
:: quarta-feira, 18 de janeiro de 2012
Respeito à diversidade
"Diversidade humana é evolução. Não tolerá-la ou desrespeitá-la é o que representa retroagir no tempo e voltar até a época em que mentes brilhantes e capazes eram ignoradas e descartadas por pura ignorância e preconceito."
(Jairo Marques, no artigo "Essa gente pequena")
(Jairo Marques, no artigo "Essa gente pequena")
Post filosófico do dia (2)
"A maior riqueza da vida é ter para onde voltar, sempre ter pra quem voltar, que te aceite. Todas as riquezas só tem graça se divididas com alguém."
(Gisele Rodrigues, @giselefor)
(Gisele Rodrigues, @giselefor)
Post filosófico do dia
"Não sei bem certo
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é intuição
E aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá..."
(Trecho de "Aonde Quer Que Eu Vá", Os Paralamas do Sucesso)
Se é só ilusão
Se é você já perto
Se é intuição
E aonde quer que eu vá
Levo você no olhar
Aonde quer que eu vá
Aonde quer que eu vá..."
(Trecho de "Aonde Quer Que Eu Vá", Os Paralamas do Sucesso)
Desejos e relacionamentos no mundo moderno
"(...) Mulheres querem reconhecimento, escuta, intimidade, visibilidade, sentirem-se únicas, inesquecíveis.Comentário
Uma professora, de 55 anos, diz: 'Eu quero me sentir especial, ser escutada com atenção, ser amada mesmo gordinha, com rugas e celulite. Quero sentir que sou a mulher mais gostosa do mundo para o meu marido'.
E acrescenta: 'Quero que, para ele, e só para ele, eu seja a única mulher do mundo, que ele não se interesse por mais ninguém. Morro de inveja de mulheres que não trabalham e às quais o marido dá um cartão de crédito sem limite. Quer maior prova de amor? Mulheres que não são jovens ou bonitas, mas são tratadas como princesas'. (...)
A falta de compreensão e de escuta parece explicar grande parte das insatisfações masculinas e femininas.
Parece tão simples, mas que tal perguntar para o outro o que ele realmente quer? E ouvir com atenção e carinho a resposta, sem julgar, rotular e condenar?"
(Mirian Goldenberg, trechos de "O que eles e elas querem", na Folha de S.Paulo de 17/1/2012 - os grifos em negrito são meus)
Após ler o artigo, vejo um ponto positivo e um ponto negativo a destacar sobre a realidade dos relacionamentos.
O lado positivo é a perfeita conclusão final do artigo, falando sobre a necessidade de compreensão, atenção e respeito nos relacionamentos. Perguntar ao outro o que ele quer e ouvir a resposta sem preconceitos, medos e julgamentos precipitados. Compreender as diferenças e admirá-las.
Todo mundo fala muito sobre isso em teoria, mas poucos têm o hábito de aceitar as diferenças e compreender os desejos dos outros. O resultado é desastroso em grande parte das vezes.
Pior: geralmente as pessoas só percebem essas falhas após o término da relação. E aí, muitas vezes, já é tarde demais para recuperar a confiança perdida. E pensar que tudo podia ser resolvido com perguntas e respostas diretas, sinceras, respeitosas. Isso é sinal de amor verdadeiro.
Agora vamos para o lado negativo, fútil e triste que o artigo mostrou sobre desejos e sobre o conceito de amor para algumas pessoas.
A professora que dá seu depoimento no artigo começa até bem sua explicação sobre o que espera de um relacionamento. Pede atenção, quer ser vista e tratada como "única" pelo marido.
Mas logo em seguida... ela afirma que tem inveja das mulheres que recebem um cartão de crédito ilimitado dos maridos (!), que não precisam trabalhar, e diz que isso seria sinônimo de ser tratada como "princesa". E ela chega a colocar tal ato no topo de todo o sentimento que (em tese) sustenta a relação: "Quer maior prova de amor?" (!!)
Vejam como está nosso mundo moderno. Amor agora virou sinônimo de dinheiro ilimitado dado pelo marido.
Felizmente essa não é a visão geral das mulheres modernas. Mas é muito triste ver que ainda há mulheres pensando assim e que elas nem mesmo percebem incoerência alguma.
Essa moça do depoimento deve ser uma boa pessoa, mas não conseguiu fazer uma autocrítica mínima da realidade em que vive para identificar o quão distante ela está do conceito verdadeiro de amor. Tanto que expressou essa relação "amor-dinheiro" com a maior naturalidade do mundo ("Quer maior prova de amor?").
Me pergunto quantas pessoas concordariam com ela.
Vejam, não acho que seja culpa da moça. O mais provável, como acontece na grande maioria das concepções de amor que envolvem dinheiro, é que esses desejos tenham sido desenvolvidos por causa da cultura moderna, da forma como nossa sociedade educa e forma o caráter das pessoas.
Se a televisão, se as famílias, se os amigos, se tudo na sociedade capitalista coloca que ser feliz é ter dinheiro ilimitado, oras, por que não achar que a maior prova de amor é receber do homem amado um cartão de crédito com fundos ilimitados?
Outros já são mais cínicos e preferem dizer que o dinheiro é simplesmente mais importante do que o amor. O que, na prática, serve à mesma lógica.
Por mais que a culpa dessa visão materialista esteja na sociedade em si, é preciso lembrar que temos liberdade para questionar mesmo os padrões mais difundidos e aceitos hoje. É assim que acontecem as verdadeiras mudanças no mundo. Mas, para isso, é preciso querer abrir mão de preconceitos e desejos materiais excessivos, desnecessários, falsos, criados pelo sistema. É preciso, enfim, querer pensar por si mesmo e questionar esses valores fúteis.
Porém, a triste verdade é que poucos estão dispostos a fazer isso.
Na teoria, todos são altruístas e se dizem não-materialistas. Na prática, tratam amor e dinheiro como se fossem a mesma coisa - ou até colocam o dinheiro na frente do amor...
Socorro. Quero mesmo é voltar para Plutão...
Sentido para a Existência
"Eu vejo tudo passando pelos meus olhos, eu sinto todas as fraquezas em meu corpo e, depois de tudo, o que me move é a minha indignação, o meu desejo de mudança, esse é meu alimento, é desse sentimento que eu tiro minha força para levantar da cama todos os dias, por que eu acredito! Eu acredito que é possivel viver em mundo diferente, um mundo alimentado por sonhos e ideiais, um mundo onde a luxúria de poucos não é mantida através da miséria de muitos.
Eu acredito que nenhuma lágrima foi em vão. Eu não permito que assim seja. Porque enquanto eu existir, existirá um ideal e um grande sonho me sustentando. Porque enquanto eu existir dedicarei minha vida para não deixar que nenhuma lágrima, nenhuma noite de fome, angústia e medo tenha sido em vão.
Eu descobri que o sentido da minha vida existirá somente enquanto eu lutar com todas as minhas forças por aquilo que acredito! Hoje eu não me sinto uma no meio de muitos, mas eu sinto a voz do povo ecoando em minha existência!"
(Trecho de "O mundo e o sentido da vida", no blog "anycolloryoulike" da filósofa Lorraine)
Eu acredito que nenhuma lágrima foi em vão. Eu não permito que assim seja. Porque enquanto eu existir, existirá um ideal e um grande sonho me sustentando. Porque enquanto eu existir dedicarei minha vida para não deixar que nenhuma lágrima, nenhuma noite de fome, angústia e medo tenha sido em vão.
Eu descobri que o sentido da minha vida existirá somente enquanto eu lutar com todas as minhas forças por aquilo que acredito! Hoje eu não me sinto uma no meio de muitos, mas eu sinto a voz do povo ecoando em minha existência!"
(Trecho de "O mundo e o sentido da vida", no blog "anycolloryoulike" da filósofa Lorraine)
:: segunda-feira, 16 de janeiro de 2012
Luto, tristeza e homenagem
Hoje (16/1/2012) faleceu o grande escritor Bartolomeu Campos de Queirós.
Estou sem palavras.
- No G1: Morre, em Belo Horizonte, o escritor Bartolomeu Campos de Queirós
- No "Confissões, Declarações e Crônicas...": Lágrimas na Literatura
Estou sem palavras.
- No G1: Morre, em Belo Horizonte, o escritor Bartolomeu Campos de Queirós
- No "Confissões, Declarações e Crônicas...": Lágrimas na Literatura
"A palavra nunca escreve tudo o que a emoção sente."
(Bartolomeu Campos de Queirós)
:: domingo, 15 de janeiro de 2012
Post filosófico do dia (5)
"As sociedades, como as pessoas, podem aprender com o erro. Já quando não lhes é dada a chance de errar, não terão jamais como acertar."
(Renato Janine Ribeiro)
(Renato Janine Ribeiro)
Post filosófico do dia (3)
- Vídeo (24/5/2011): Eduardo Galeano en la #acampadaBCN
"Vivemos num mundo infame, eu diria. Não é muito animador, é um mundo mal nascido. Mas existe outro mundo na barriga deste. Esperando... Que é um mundo diferente. Diferente e de parto complicado."
(Eduardo Galeano)
Post surreal do dia (2) - "Manual de Sobrevivência"
"Jamais entre em discussão com idiotas. Faça caretas e simule um ato sexual contra a parede."
(Tirinha dos Malvados)
(Tirinha dos Malvados)
Post filosófico do dia (2)
"Se é tarde me perdoa
Mas eu não sabia que você sabia
Que a vida é tão boa
Se é tarde, me perdoa"
(Trecho de "Se é tarde me perdoa", João Gilberto - composição de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli)
Mas eu não sabia que você sabia
Que a vida é tão boa
Se é tarde, me perdoa"
(Trecho de "Se é tarde me perdoa", João Gilberto - composição de Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli)
Post filosófico do dia
"Gave you the space so you could breathe,
I kept my distance so you would be free,
And hope that you find the missing piece,
To bring you back to me,
Why don't you remember?
Don't you remember?
The reason you loved me before,
Baby, please remember me once more,
When will I see you again?"
(Trecho de "Don't You Remember", Adele)
I kept my distance so you would be free,
And hope that you find the missing piece,
To bring you back to me,
Why don't you remember?
Don't you remember?
The reason you loved me before,
Baby, please remember me once more,
When will I see you again?"
(Trecho de "Don't You Remember", Adele)
Post surreal do dia
"A arte de viver bem pode ser encontrada
em qualquer lugar."
(Sêneca)
em qualquer lugar."
(Sêneca)
Quando o Pouco é Muito
'Por que você se contenta com tão pouco?'
Essa é a pergunta que muitas pessoas – amigos ou não – me fazem ao verem como tento levar minha vida, em todos os seus aspectos. Elas não entendem como posso ser feliz vivendo uma vida simples e completa de um modo bem diferente do "normal", e se assustam por vários motivos.
Uma coisa que logo se nota é minha expressa vontade de não ter um trabalho fixo, de não querer obrigações em minha vida. Fujo disso, sim, talvez mais do que qualquer outra coisa. Lutei e ainda luto por um modo de viver no qual eu possa escolher o que fazer a cada dia, acordar sem despertador, respeitar meus interesses e desejos para inventar novidades (ou repetir a boa rotina) a cada momento, sem ter assumido um rígido compromisso a priori.
Em seguida as pessoas notam meu desapego a bens materiais. Realmente consigo viver com pouco; mas isso, em uma sociedade de consumo como a nossa, é visto como algo alienígena e até perigoso (vai que a moda pega...).
Afinal, como pode uma pessoa "normal" não desejar ter muito dinheiro, um carro, um belo e grande apartamento, uma casa na praia, ser sócio de um clube, ter roupas e sapatos diversos, viajar o tempo todo (inclusive para o exterior), comprar cotidianamente mais e mais produtos e serviços que supostamente dão prazer e status?
Pois é, eu não tenho esses desejos – ou melhor, tenho alguns, mas eles são tão reduzidos se comparados aos de outras pessoas que realmente assustam.
Gosto de viajar, por exemplo, mas não vou me sacrificar trabalhando como um louco para conseguir juntar dinheiro. Ou a grana vem naturalmente, ou prefiro viajar para perto ou para dentro de mim, nos meus sonhos, nas minhas caminhadas, nas minhas conversas de bar, no contato com meus poucos amigos – isso certamente me dá mais prazer do que qualquer viagem que exija um sacrifício anterior ou posterior.
Enfim, chegamos ao lado sentimental. O que desejo parece pouco, e também assusta as pessoas. Ao contrário de tanta gente, eu não quero ter muitos amigos. Meu desejo é de qualidade, não quantidade. Nem dou conta de dar atenção a mais do que um punhado de amigos. O que procuro são poucas e boas amizades sinceras.
E explico para as pessoas que só desejo amar e ser amado. O resto não importa, o resto se constrói, depois, junto a essa pessoa que amamos. E, incrivelmente, algumas pessoas acham isso "pouco", pois eu não tenho planos mirabolantes nem idealizações de futuro.
Fico com pena dessa gente que não entende a bela simplicidade do sentimento. O puro e simples desejo de querer amor na vida é muito, mas muito mais do que qualquer outra coisa que se possa desejar.
Ele não se apega a noções pré-definidas de namoro, casamento, compromisso, família. Ele não se apega a uma imagem pré-estabelecida da pessoa ideal que você procura, de um futuro pré-imaginado, não se apega a aparências físicas, não se apega a uma vulgaridade tola de procurar a "posse" de um outro ser humano.
Por isso é tão importante desejar um amor simples – simples pois é completo, humano, real, sem preconceitos e sem dissimulações. Esse amor já é muito, muito mesmo, e é o que todos deveriam procurar. Como bem disse o cineasta Fernando Trueba, o amor deve ser generosidade, não propriedade.
Mas, no mundo atual, onde a grande maioria das pessoas só se importa em ter uma vida de consumo e egoísmo desenfreados, onde há uma banalização dos sentimentos e do amor verdadeiro e sincero, quem é que consegue diferenciar o que é muito do que é pouco?
A verdade é que eu quero muito, muito mesmo na vida, desde que para atingir isso eu não machuque ninguém.
O intrigante é que o meu muito, para vocês, às vezes parece tão pouco.
A tristeza das perdas na vida
- Na Folha: Caso Celso Daniel faz dez anos sem solução
Triste lembrar desse episódio, e triste ver que o caso continua "uma novela".
Mas o mais triste de tudo isso foi a perda da pessoa, o professor Celso Daniel.
Tive a honra de ter um semestre de aulas com ele na faculdade, em 1995. A disciplina era "Formação do Brasil Contemporâneo", e acho que foi a época em que aprendi o fundamental sobre história, geografia, política e economia. E não pensem que ele fazia discursos ideológicos: pelo contrário, apresentava todos os lados de cada argumento. É uma das pouquíssimas boas lembranças que tenho da FGV.
Sem dúvida os professores que mais me marcaram na faculdade foram: Celso Daniel; seu xará, o economista Celso Waack Bueno; e o professor de psicologia Seiji Uchida.
Só quem conheceu o professor Celso Daniel sabe o tamanho da perda que tivemos com sua morte, seja na política, na educação ou na vida.
"(...) No próximo dia 20, a morte de Celso Daniel completará dez anos à espera de desfecho na Justiça. Ao longo da década, o crime adquiriu contornos de novela policial.Comentário
Sete pessoas ligadas ao caso, entre testemunhas e acusados de participação no crime, morreram no período.
Ex-professor universitário, deputado e prefeito da cidade do ABC [Santo André] pela terceira vez, Celso Daniel foi encontrado morto numa estrada de terra em Juquitiba (SP), alvejado por oito tiros, após dois dias de sequestro. (...)"
Triste lembrar desse episódio, e triste ver que o caso continua "uma novela".
Mas o mais triste de tudo isso foi a perda da pessoa, o professor Celso Daniel.
Tive a honra de ter um semestre de aulas com ele na faculdade, em 1995. A disciplina era "Formação do Brasil Contemporâneo", e acho que foi a época em que aprendi o fundamental sobre história, geografia, política e economia. E não pensem que ele fazia discursos ideológicos: pelo contrário, apresentava todos os lados de cada argumento. É uma das pouquíssimas boas lembranças que tenho da FGV.
Sem dúvida os professores que mais me marcaram na faculdade foram: Celso Daniel; seu xará, o economista Celso Waack Bueno; e o professor de psicologia Seiji Uchida.
Só quem conheceu o professor Celso Daniel sabe o tamanho da perda que tivemos com sua morte, seja na política, na educação ou na vida.
:: sexta-feira, 13 de janeiro de 2012
Post filosófico do dia (3) - "Sobre Poetas e Ficcionistas"
"Todos nós somos impossíveis tradutores de sonhos. Na verdade, os sonhos falam em nós o que nenhuma palavra sabe dizer."
(Mia Couto)
(Mia Couto)
Post filosófico do dia (2)
"Enquanto isso existir, esse sol, esse céu sem nuvens, e desde que eu consiga apreciá-los, como posso ficar triste?"
(Anne Frank)
Músicas da Alma
Tenho uma querida amiga que não gosta de Legião Urbana.
Ah, mas ela não sabe o quanto eu souchato e teimoso persistente.
Ela vai ter que ouvir até gostar. ;-)
----------
"Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um pro outro:
- Estou com sono, vamos dormir!
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor"
(Trecho de "O Mundo Anda Tão Complicado", Legião Urbana)
Ah, mas ela não sabe o quanto eu sou
Ela vai ter que ouvir até gostar. ;-)
----------
"Vamos chamar nossos amigos
A gente faz uma feijoada
Esquece um pouco do trabalho
E fica de bate-papo
Temos a semana inteira pela frente
Você me conta como foi seu dia
E a gente diz um pro outro:
- Estou com sono, vamos dormir!
Vem cá, meu bem, que é bom lhe ver
O mundo anda tão complicado
Que hoje eu quero fazer tudo por você
Quero ouvir uma canção de amor
Que fale da minha situação
De quem deixou a segurança de seu mundo
Por amor"
(Trecho de "O Mundo Anda Tão Complicado", Legião Urbana)
Justiça e Igualdade
"Ter a preocupação e o cuidado de valorizar as decisões do dia a dia, sobretudo aquelas que envolvem diretamente os interesses do outro, ajuda a construir uma sociedade mais igualitária, menos voraz com os tidos mais suscetíveis por razões diversas -faixa etária, característica físicas, econômicas etc."Comentário
(Jairo Marques, trecho de "Um ano para ser mais justo")
Nesse ótimo artigo o Jairo cita um excelente livro do professor Michael Sandel: "Justiça - O Que É Fazer a Coisa Certa". Li esse livro já faz algum tempo (acho que esqueci de postar algo sobre ele aqui no blog) e recomendo a todos: é leitura imprescindível que nos tira da nossa "zona de conforto" e faz pensar.
Para quem prefere algo mais interativo e visual, o curso do professor está disponível em vídeos, gratuitamente na Internet. Veja aqui. No total são doze aulas de aproximadamente uma hora cada, e vale a pena assistir a cada minuto.
Achei o curso em vídeo de certa forma mais interessante do que o livro, pois mostrou com muita propriedade as opiniões distintas dos diversos alunos de Harvard.
O debate sobre justiça e moral é fundamental para nos questionarmos sobre preconceitos, egoísmo e solidariedade. Pena que isso não seja ensinado com mais ênfase nas nossas escolas e universidades.
Post surreal do dia (2) - "Meu futuro no hospício está garantido"
Bom, se um dia quando eu for internado em um hospício e a loucura me fizer finalmente escrever um livro - sobre a própria loucura, é claro -, já tenho o título e a capa prontos:
"Escrevo um livro para ver se me livro."
(Adélia Prado)
(Adélia Prado)
Post filosófico do dia - "Deixar em paz"
"Confesso que não costumo rezar, desaprendi as orações da minha juventude e, principalmente, não tenho a quem rezar nem a quem pedir nada, a não ser que me deixem em paz, não na paz do Senhor, mas na minha própria paz."
(Carlos Heitor Cony)
(Carlos Heitor Cony)
Post surreal do dia - "Diálogos Malucos no Puteiro"
— "Me paga uma bebida, gato?"
— "Eu, 'gato'? (risos) Olha, desculpa, sei que é teu trabalho fazer isso. Mas eu só tenho cara de trouxa."
— "Eu, 'gato'? (risos) Olha, desculpa, sei que é teu trabalho fazer isso. Mas eu só tenho cara de trouxa."
Solidariedade
"Tenho tudo que quero. Se eu tivesse um milhão de dólares a mais minha vida não seria diferente. Já sou privilegiada. Não quero melhorar de vida, quero que aqueles que estão numa situação muito menos privilegiada que a minha melhorem de vida."Comentário
(Lola, em trecho de "Insultar ou aplaudir mulheres ricas, o culto ao capitalismo" - o grifo em negrito é meu)
O blog da Lola ("Escreva, Lola, Escreva") é sem dúvida um dos melhores e mais humanos da blogosfera.
O mundo seria infinitamente melhor e mais justo se as pessoas compreendessem a vida tão bem quanto a Lola.
:: quinta-feira, 5 de janeiro de 2012
Post filosófico do dia (4)
"Esteja certo: Se hoje você se divertiu enquanto deixou alguém se sentindo uma merda, amanhã será você a grande merda. Não é praga, é roda viva."
(Gisele Rodrigues, @giselefor)
(Gisele Rodrigues, @giselefor)
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