quarta-feira, 5 de fevereiro de 2020

Post filosófico do dia

"O difícil, em sociologia, é conseguir pensar de modo completamente assombroso, desconcertado, coisas que acreditávamos compreendidas havia muito tempo. É por isso que às vezes é preciso começar pelo mais difícil para realmente compreender o mais fácil."

(Pierre Bourdieu)

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

Post filosófico do dia

"Estou Cansado"
(Álvaro de Campos/Fernando Pessoa)

Estou cansado, é claro,
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto —
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo...
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente; eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.

sábado, 4 de janeiro de 2020

Post filosófico do dia

"Meu Deus, como me sinto no ar! Uma tristeza funda lá no fundo, uma tristeza que não esclarece, não diz bem o que é e por que é. Não é solidão, tenho amigos sempre comigo. Não é falta de trabalho, tenho muito o que fazer. Não é doença, sei gozar a doença. Não é ambiente, nunca senti saudade do meu ambiente. É como que pressentimento de um grande erro, de qualquer coisa que não está mais certa e que se não está certa é por minha culpa. Enfim, há qualquer coisa de desagradável em mim, talvez seja medo. Sim isso é incontestável: estou com muito medo."

(Mário de Andrade, em carta a Oneyda Alvarenga)

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Post filosófico do dia

"It's not that we don't care
We just know that the fight ain't fair
So we keep on waiting (waiting)
Waiting on the world to change"


(John Mayer, trecho de "Waiting On the World to Change")

terça-feira, 27 de agosto de 2019

Post filosófico do dia

"O papel do intelectual é ser marginal, outsider. Se ele for independente, não pode ser leal a uma religião nem a um partido político, muito menos ao poder.

O intelectual tem que ser uma voz que critique o poder. O preço é a solidão. Não quero ser um hipócrita acompanhado de milhares de pessoas."


(Milton Hatoum)

domingo, 7 de julho de 2019

Post filosófico do dia

"A memória é uma ilha de edição."
(Waly Salomão)

sábado, 6 de julho de 2019

Post filosófico do dia

"Musicalizante (Queria-Te)"

Dentro de uma simples melodia que toca distante,
ouço tua respiração, inspiro teu cheiro, sinto teu abraço:
Queria-te tanto aqui ao meu lado.

Relembro momentos musicais só nossos
São tantos sonhos, esperanças,
Infinitas saudades.
Ó linda menina,
Queria-te aqui, agora.

Cantarolando músicas ao teu lado
Deitados na cama, no sofá, numa velha rede,
Ou esparramados no chão em doces abraços.

É desenho perfeito de uma vida simples, feliz,
Ah, como queria-te aqui!

Você permanece tão distante mas,
ao mesmo tempo,
Visita-me todos os dias
Em meus atormentados sonhos.

Você atiça minhas lembranças
Tua voz suave, tua presença intensa em minh'alma,
Recriando as mais belas trilhas sonoras
Só nossas, tão singularmente nossas.

Queria-te aqui, para sempre, eterna musa:
Musicalizante, meu passado,
Musicalizante, minha saudade,
Musicalizante, nosso amor.

A vida um dia fez sentido com a música que compartilhamos,
Mas, sina de um falso e tolo poeta,
Logo tudo se desfez entre nós.

Sobrou, ao fim, esta nova saudade,
Um tão triste e doloroso,
Musicalizante,
Eterno silêncio que nos separa.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Post filosófico do dia

"Nós dificilmente somos mais evoluídos que os antigos Persas que, segundo Heródoto, tomavam suas grandes decisões discutindo-as duas vezes: uma vez bêbados, uma vez sóbrios."

(Joshua Rothman)

domingo, 27 de janeiro de 2019

Post filosófico do dia

"O ideal do Iluminismo de que todos somos capazes e devemos pensar por nós mesmos não deve ser confundido com a fantasia hiper-iluminista de que todos somos capazes de pensamento independente. Nosso pensamento é moldado por nosso ambiente, de maneiras profundas das quais nós mesmos não temos consciência. Aqueles que se negam a aceitar que são tão limitados por essas forças quanto todas as outras pessoas têm delírios de grandeza intelectual."

(Julian Baggini)

sábado, 13 de outubro de 2018

Post filosófico do dia

"O Último Poema"
(Manuel Bandeira)

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

Post filosófico do dia

"Não somos nós que guardamos as lembranças, são as lembranças que nos guardam."
(Mia Couto)

Ausência de palavras

"(...) A vida nos golpeia com acontecimentos que nos fazem perder o amor pelas palavras. Não são mais nossas amigas, não se apresentam como devem, não bastam, não traduzem, não nos nutrem mais. Em vez de dar sentido, sugam-no. Desbotam o sentimento antes da última letra sem dar conta do tamanho da dor. Viram arremedos, pequenos totens inúteis que aprisionam o impossível de ser aprisionado, congelam o que não para de ferver.

Portanto, perdoem-me. Hoje não vou arriscar. Lanço aqui este alinhavo para dizer que hoje não tenho palavras para o indizível."


(Denise Fraga, trecho de "Não há palavras para o indizível")

sábado, 10 de setembro de 2016

Setembro amarelo

- Camila Appel: "Setembro amarelo: mês de conscientização do suicídio"
"Onze da manhã. Ele entra no Fórum Trabalhista de São Paulo com o filho de quatro anos no colo. Sobe o elevador, senta no beiral do prédio e de lá ele salta. O filho preso nos braços até o impacto do chão afastá-los para sempre. No mesmo dia, um homem esfaqueia a mulher, arremessa os dois filhos pequenos do 18° andar de seu prédio e logo em seguida se joga. 'Está claro para mim que está insustentável e não vou conseguir levar adiante', ele diz numa carta. Essas cenas são de embrulhar qualquer estômago. Podia ser ficção mas infelizmente não é. Aconteceram no dia 29 de agosto deste ano.

Setembro é o mês amarelo, um mês dedicado a campanhas de prevenção do suicídio. Alguns veículos de comunicação divulgam eventos e depoimentos. Outros se calam. Faz parte de uma cultura de não falar muito sobre o assunto, que ocorre devido ao tabu em torno do tema e do medo do tal Efeito Werther. Esse é o nome dado ao efeito do suicídio por imitação. Um potencial suicida buscaria inspiração em casos divulgados pela imprensa, principalmente relacionado a celebridades. Claro que uma cobertura sensacionalista do suicídio e a divulgação de alguns detalhes é desnecessária, mas por outro lado, não podemos calar perante um problema de saúde pública mundial. (...)

Escutar um potencial suicida é ter uma conversa franca, sem pisar em ovos nem usar eufemismos. Não é fingir que está tudo bem. Porque não está. Compreender uma dor é estar presente sem julgamentos, permitir que o outro fale sem sentir-se em um interrogatório. Muitas vezes, aquela pessoa não quer morrer. Ela só quer que a dor vá embora. Só que ela não vê saída e morrer parece ser o melhor que lhe resta fazer. Normalmente, ela não quer magoar os familiares, causar traumas, ele quer justamente deixar de ser um estorvo. (...)

Podemos e devemos fazer alguma coisa. Alguém próximo a você pode estar numa situação 'sem saída', mesmo que o sorriso no rosto disfarce seus planos para não acordar no dia seguinte.

Os dados são alarmantes. Uma cartilha sobre orientação a conselheiros da OMS diz que um maior número de pessoas comete suicídio anualmente do que as que morrem em todos os conflitos mundiais combinados (acesse aqui). Citando dados do Ministério da Saúde e da própria OMS, o CVV diz que pelo menos 32 brasileiros se matam por dia, taxa superior às vítimas de AIDS e da maioria dos tipos de câncer. Desses 32 casos, 28 poderiam ter sido prevenidos. No mundo, estima-se que uma pessoa se mata a cada 40 segundos.

O CVV criou o site SetembroAmarelo reunindo informações sobre as atividades do mês, com maior atenção ao Dia Mundial de Prevenção do Suicídio, dia 10 de setembro. (...)"

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Post filosófico do dia

"Gosto muito de ficção de terror e também de ficção científica. Escrevendo meu romance descobri duas coisas: a primeira é que não há nada mais aterrorizante do que ser possuído por si mesmo. A segunda é que há realidades que só a ficção suporta. Ou há realidades que precisam ser inventadas para serem contadas."

(Eliane Brum)

terça-feira, 3 de maio de 2016

Blackbird, eternamente

- Na Folha: "Paul McCartney encontra mulheres que inspiraram a canção 'Blackbird'"
"Paul McCartney se encontrou no sábado (30) com duas mulheres que inspiraram a composição de 'Blackbird', faixa do álbum 'White Album', de 1968, e um dos maiores clássicos dos Beatles.

Elas fizeram parte do processo de integração racial da escola Little Rock's Central, no Estado norte-americano do Arkansas, em 1957. O episódio marcou o ingresso de negros na instituição, que antes só recebia alunos brancos. (...)"

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Post filosófico do dia

"Amar é ficar sem chão. O que nem sempre quer dizer voar."
(Ana Suy, ‏@a_suy)

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Post filosófico do dia

"(...) Há de haver um lugar onde a música que evoca os bons espíritos seja capaz de trazer respostas celestiais em piscadas de luz. Todos os habitantes compreendem, em silêncio, como é misterioso aceitar as manifestações do inefável. Contudo, há a clareza de que estamos cercados pelos fios inexoráveis do Cosmos.

Nesse lugar, imaginado, há também um telescópio que me aproxima das crateras relutantes da lua cheia, das chuvas de meteoros e do olhar profundo de Saturno. E, ao passar alguns segundos, o Universo se desgruda tão rapidamente da lupa, que se torna nítida a sensação de não estar paralisada em mesquinhezes mundanas.

O portal, escondido dos sinais de celulares e alheio aos pesadelos terrestres, traz reflexões em cada uma das conversas entre seus seres. Os bichos dialogam em lambidas, colos e uivos; as crianças embriagam-se em liberdades; os adultos auditam seus preconceitos para dar espaço às meditações.

O peso da leveza. Por que, meu Deus, é tão doloroso sustentar a leveza para longe desse lar? Por qual razão escolho me esconder das feridas que sangram, se somos todos poeira da mesma incompletude? Por que nos agredimos tanto, esquecendo de que nossos inimigos são os verdadeiros mestres, nessa errante jornada? Por que temos tanto medo de nos assumirmos mentirosos, falácias de nossas trajetórias? Por que me dá tanto medo ser feliz? Por quais razões estúpidas associo a arte à melancolia? Por que o processo criativo não pode estar acompanhado de longas gargalhadas, noites perfeitas, cafés-da-manhã na cama? (...)"


(Mariana Portela, trecho de "Reabitar a alma")

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Desigualdade, racismo e a urgência da legalização do aborto

"Milhares de brasileiras, a maioria delas jovens e negras, morrem todos os anos por abortos malfeitos e clandestinos, porque não há interesse em discutir seriamente a descriminalização. Não há interesse porque é preciso manter o aborto como moeda eleitoral e de barganhas. Na prática, como qualquer um que não seja hipócrita sabe, o aborto é liberado no Brasil para quem pode pagar. Só é crime para as mais pobres. E também por isso, porque 'só' mata as mais pobres, a maioria delas negras, é possível manter o aborto como moeda de chantagem. Insisto nisso, porque o aborto é também uma questão de classe e de raça no Brasil. Diz respeito à desigualdade e ao racismo, duas de nossas fraturas maiores."

(Eliane Brum)

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Post filosófico do dia

"Não me importo com a felicidade. A felicidade, para mim, diz respeito ao mundo do consumo. Me interesso pela alegria, essa experiência complexa, rara, que diz respeito também à resistência. É quando faço reportagem que tenho alegria. Mesmo quando o que experimento e testemunho é devastador, sinto que estou onde deveria estar. Escutar as pessoas, coisa que um repórter faz com todos os sentidos, me dá profunda alegria. É na rua que eu me sinto em casa."

(Eliane Brum)

domingo, 27 de março de 2016

Post filosófico do dia

"Quem grita não ouve nem quer ouvir. Gritar como forma de se mover no mundo é um ato extremamente autoritário, porque silencia a voz do outro. E, silenciando a voz do outro, mata-se o outro simbolicamente. O espaço público precisa voltar a ser o espaço da alteridade. Precisamos conviver com os diferentes e com as diferenças. Precisamos voltar a nos interessar por ouvir. Precisamos voltar a conversar."

(Eliane Brum)

sexta-feira, 11 de março de 2016

Post filosófico do dia

"(...) I am forty years old now, and you know forty years is a whole lifetime; you know it is extreme old age. To live longer than forty years is bad manners, is vulgar, immoral. Who does live beyond forty? Answer that, sincerely and honestly I will tell you who do: fools and worthless fellows. (...)"

(Fiódor Dostoiévski, "Notes from Underground")

quarta-feira, 2 de março de 2016

Post filosófico do dia

"Sou pipa voada. Escrevo História como se fosse crônica, escrevo crônica como se fosse História. Faço música, bato tambor, invento, tento, brinco e canto. Escrevo sobre macumba e samba. Faço merda, encho o pote e jogo bola. Estudo pra cacete. Vez por outra pinta alguém, com fumos acadêmicos, sugerindo que eu trabalhe com o conceito de algum intelectual bacana norte-americano ou europeu para legitimar o trabalho. Eu gosto, leio, mas pergunto: o sujeito sugerido sabe o que é macumba? Sabe a diferença entre cabula e barravento, risca ponto com a pemba, bate cabeça, não confunde jurema com juremá, cambonou Cambinda, raspou o fundo do tacho? Magníficos, me deixem escrever sobre a rua com a língua da rua e me deixem falar de macumba com conceitos que o Seu Pedra Preta elaborou. Gosto de fazer da rua sala de aula; gosto de fazer da sala de aula a rua. Sou rolimã numa ladeira, como ensinou o mestre Aldir Blanc. Desencarna, turma. Simbora chutar o pau da barraca. Vamos botar as caras, escrever, escutar o caboclo, encantar a palavra, cagar pro figurão, ousar na forma, pintar os cacetes, desconfiar dos títulos, deixar de virar lattes para virar as latas nas esquinas mais vagabundas. Malandrão que me aconselha cheio de soberba: sossega com o teu diploma e me deixa brincar com o conhecimento. No terreiro onde eu piso, da tua boca não sai ponto. Vai por mim: canta pra subir, se fantasia com a toga, pendura quadro na parede e não fode a minha paciência. Eu não preciso de reconhecimento que não seja o da minha gente, dos meus amores, das gentilezas do povo da rua e, sobretudo, do meu orixá. Paz na terra e cana no copo."

(Luiz Antonio Simas)

Post surreal do dia

Laudêmio

terça-feira, 1 de março de 2016

Inocência, cinismo e ilusões

"Lembro uma cena do primeiro filme da trilogia Matrix, ícone do final do século 20. Os membros da resistência eram aqueles que, em algum momento, enxergaram que a vida cotidiana era só uma trama, um programa de computador, uma ilusão. A realidade era um deserto em que os rebeldes lutavam contra 'as máquinas' num mundo sem beleza ou gosto. Fazia-se ali uma escolha: tomar a pílula azul ou a vermelha. Quem escolhesse a vermelha, deixaria de acreditar no mundo como nos é dado para ver e passaria a ser confrontado com a verdade da condição humana. (...)

O tempo das ilusões acabou. Nenhum ato do nosso cotidiano é inocente. Ao pedir um café e um pão com manteiga na padaria, nos implicamos numa cadeia de horrores causados a animais e a humanos envolvidos na produção. Cada ato banal implica uma escolha ética – e também uma escolha política.

A descrição das atrocidades que cometemos rotineiramente pode aqui seguir por milhares de caracteres. Comemos, vestimos, nos entretemos, transportamos e nos transportamos à custa da escravidão, da tortura e do sacrifício de outras espécies e também dos mais frágeis da nossa própria espécie. Somos o que de pior aconteceu ao planeta e a todos que o habitam. A mudança climática já anuncia que não apenas tememos a catástrofe, mas nos tornamos a catástrofe. Desta vez, não só para todos os outros, mas também para nós mesmos. (...)

Cada vez mais as outras espécies começam a ser vistas como diferentes – e não mais como inferiores. Assim, o que se coloca no campo da ética são questões fascinantes e muito mais espinhosas. Mesmo o termo 'direitos humanos' passa a ser questionável, porque pensar apenas em 'humanos' já não é mais possível. No momento em que nos tornamos a própria definição de catástrofe, o conceito de 'espécie', em sua expressão cultural, se desloca. Outras formas de compreender e nomear o lugar dos humanos ganham espaço no horizonte filosófico e no exercício da política.

Resta o cinismo, sempre o último reduto. Dizer que, diante de mais de 7 bilhões de seres humanos ocupando o planeta e crescendo, não há outra maneira a não ser comer e vestir exploração, escravidão e tortura é a afirmação mais óbvia. É a afirmação expandida usada para todas as desigualdades de direitos. Desde que não seja eu – ou os meus – os sacrificados, tudo bem.

Vale a pena dedicar um parágrafo aos cínicos, essa categoria que prolifera com o ímpeto de um Aedes aegypti no Brasil e no mundo. O cínico é aquele que olha com calculado enfado para todos os outros, porque ele acredita que entende o mundo como ele de fato é. Ele é o que sabe das coisas, o único esperto. Todos os outros são tolinhos com ideias irreais. O cínico é aquele que deixa o mundo como está. Mas talvez, neste momento, o cínico seja justamente o inocente. Sua inocência consiste em acreditar que a pílula azul ainda está disponível. (...)

Talvez estejamos, como espécie que se pensa, diante de um dos maiores dilemas éticos da nossa história. Sem poder optar pela pílula azul, a das ilusões, condenados à pílula vermelha, a que nos obriga a enxergar, como construir uma escolha que volte a incluir a ética? Como não paralisar diante do espelho, reduzidos ou ao horror ou ao cinismo, eliminando a possibilidade de transformação? Como nos mover?

Diante do filé que desejamos e do olho boi que nos interroga, há pelo menos uma hipótese cada vez mais forte: o inocente é um assassino."


(Trechos de "Todo inocente é um fdp?", da Eliane Brum, no El Pais - grifos meus)

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

A concreta realidade brasileira na questão do aborto

- Eliane Brum: "Sobre aborto, deficiência e limites"
"(...) Este é um ponto importante: o respeito ao direito de escolha de cada mulher, a partir de suas condições concretas e subjetivas, da teia de sentidos construída por cada uma para se mover pelo mundo. Quando o aborto é permitido, em nenhum momento essa liberação tira de qualquer mulher o direito de não fazê-lo. O que acontece é a ampliação de direitos – e não o estreitamento. Quem entende que fazer um aborto é o mais coerente para a sua vida faz. Quem entende que não – não faz. (...)

Embora no Brasil o aborto só seja legalmente permitido em três casos, a prática é inteiramente outra. E compreender isso é fundamental para qualquer debate honesto. Na vida de todos os dias, o aborto é liberado para quem por ele pode pagar. Se uma mulher de classe média ou alta engravidar, e por diferentes motivos essa gravidez for indesejada, ela vai a uma clínica particular, paga entre 5 mil e 15 mil reais e interrompe a gestação com considerável segurança. Seus dilemas são pessoais, internos, já que a decisão de abortar costuma ser difícil, mesmo quando há convicção pessoal de que é impossível levar aquela gestação adiante. Mas essa mulher não precisa temer ser presa, muito menos morrer por um aborto mal feito. Isso quase certamente não acontecerá com ela.

Com as mulheres pobres, sim. Para elas, abortar significa correr o risco de ser presa como criminosa e significa correr o risco de morrer. Como uma clínica segura, com boas condições sanitárias e profissionais preparados, custa entre 6 e 17 salários mínimos, ela só poderá se arriscar a esquemas muito inseguros. A cada ano, há mais de 200 mil atendimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) por complicações pós-aborto, a maioria deles por procedimentos induzidos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), são realizados mais de 1 milhão de abortos inseguros por ano no Brasil. O aborto é a quinta causa de mortalidade materna no país.

Os números de atendimentos no SUS por complicações pós-aborto provam que dezenas de milhares de mulheres pobres estavam tão desesperadas que se arriscaram a serem presas e também a morrer. E, mesmo assim, acreditaram que esse risco era menor do que o de levar a gestação até o fim. Aqui é preciso interromper o texto por um parágrafo para, juntos, tentarmos nos colocar na pele dessa mulher. E é preciso fazer isso para além do ódio contra as mulheres, arraigado na sociedade brasileira. É preciso pensar – e não odiar, que é muito mais fácil.

Quem se arrisca a ser presa e a morrer está se arriscando a muito. Está arriscando tudo. Assim, é possível concordarmos, ao menos, que os fatos demonstram que aborto não é um ato banal para essas mulheres, mas uma necessidade profunda, movida por condições objetivas e subjetivas que só elas conhecem intimamente. Então, cuidado antes de sair apontando um dedo acusatório: nenhuma delas aborta sem um motivo muito forte. E isso tem de ser escutado por qualquer sociedade que queira se nortear pela ética.

Escutar é justamente debater. Aqueles que não querem debater aborto no Brasil precisam assumir que não se importam com a prisão e a morte de mulheres jovens e pobres, a maioria delas negras, já que estes são os fatos. Precisam assumir também que não se importam que o acesso ao aborto reproduza a desigualdade racial e social do Brasil, ao tornar-se acessível e seguro para quem pode pagar e criminalizado e mortífero para quem não pode. Quem se importa, debate os fatos. E escuta a posição do outro, mesmo que seja muito diferente da sua. Viver é mover-se.

E aqui, vale sublinhar, estamos falando apenas do pior. Mesmo nos casos em que o aborto é consumado sem complicações, é possível pelo menos imaginar o nível de pavor que uma mulher enfrenta ao se arriscar a fazê-lo em condições tão terríveis e sem nenhum amparo. É um pesadelo, e é um pesadelo que agora mesmo, neste instante, está sendo vivido por uma mulher em situação de extrema fragilidade. Não me parece que seja possível viver ignorando as mulheres que sofrem. E é assim que a sociedade brasileira tem vivido.

O aborto costuma surgir no debate público como moeda eleitoral. Em busca do voto religioso, candidatos da direita a esquerda têm se omitido ou chantageado com a vida das mulheres. Esta é mais uma evidência da corrosão da política tradicional, que tem se mostrado capaz de leiloar qualquer princípio: primeiro em nome de vencer a eleição, depois em nome dessa indecência que tem sido chamada de 'governabilidade'.

Quando o zika vírus provoca um debate sobre o aborto, é fundamental que todos nos esforcemos para qualificá-lo. Diante de um cenário dramático, o melhor caminho é fazer da crise uma oportunidade para tornar o país mais justo. (...)"