"Sou pipa voada. Escrevo História como se fosse crônica, escrevo crônica como se fosse História. Faço música, bato tambor, invento, tento, brinco e canto. Escrevo sobre macumba e samba. Faço merda, encho o pote e jogo bola. Estudo pra cacete. Vez por outra pinta alguém, com fumos acadêmicos, sugerindo que eu trabalhe com o conceito de algum intelectual bacana norte-americano ou europeu para legitimar o trabalho. Eu gosto, leio, mas pergunto: o sujeito sugerido sabe o que é macumba? Sabe a diferença entre cabula e barravento, risca ponto com a pemba, bate cabeça, não confunde jurema com juremá, cambonou Cambinda, raspou o fundo do tacho? Magníficos, me deixem escrever sobre a rua com a língua da rua e me deixem falar de macumba com conceitos que o Seu Pedra Preta elaborou. Gosto de fazer da rua sala de aula; gosto de fazer da sala de aula a rua. Sou rolimã numa ladeira, como ensinou o mestre Aldir Blanc. Desencarna, turma. Simbora chutar o pau da barraca. Vamos botar as caras, escrever, escutar o caboclo, encantar a palavra, cagar pro figurão, ousar na forma, pintar os cacetes, desconfiar dos títulos, deixar de virar lattes para virar as latas nas esquinas mais vagabundas. Malandrão que me aconselha cheio de soberba: sossega com o teu diploma e me deixa brincar com o conhecimento. No terreiro onde eu piso, da tua boca não sai ponto. Vai por mim: canta pra subir, se fantasia com a toga, pendura quadro na parede e não fode a minha paciência. Eu não preciso de reconhecimento que não seja o da minha gente, dos meus amores, das gentilezas do povo da rua e, sobretudo, do meu orixá. Paz na terra e cana no copo."
(Luiz Antonio Simas)
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