"(...) Há de haver um lugar onde a música que evoca os bons espíritos seja capaz de trazer respostas celestiais em piscadas de luz. Todos os habitantes compreendem, em silêncio, como é misterioso aceitar as manifestações do inefável. Contudo, há a clareza de que estamos cercados pelos fios inexoráveis do Cosmos.
Nesse lugar, imaginado, há também um telescópio que me aproxima das crateras relutantes da lua cheia, das chuvas de meteoros e do olhar profundo de Saturno. E, ao passar alguns segundos, o Universo se desgruda tão rapidamente da lupa, que se torna nítida a sensação de não estar paralisada em mesquinhezes mundanas.
O portal, escondido dos sinais de celulares e alheio aos pesadelos terrestres, traz reflexões em cada uma das conversas entre seus seres. Os bichos dialogam em lambidas, colos e uivos; as crianças embriagam-se em liberdades; os adultos auditam seus preconceitos para dar espaço às meditações.
O peso da leveza. Por que, meu Deus, é tão doloroso sustentar a leveza para longe desse lar? Por qual razão escolho me esconder das feridas que sangram, se somos todos poeira da mesma incompletude? Por que nos agredimos tanto, esquecendo de que nossos inimigos são os verdadeiros mestres, nessa errante jornada? Por que temos tanto medo de nos assumirmos mentirosos, falácias de nossas trajetórias? Por que me dá tanto medo ser feliz? Por quais razões estúpidas associo a arte à melancolia? Por que o processo criativo não pode estar acompanhado de longas gargalhadas, noites perfeitas, cafés-da-manhã na cama? (...)"
(Mariana Portela, trecho de "Reabitar a alma")
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